O Peso da Graça

Talvez você já esteja de saco cheio de entrar neste site e encontrar a palavra graça. Ou talvez eu esteja vendo graça onde não há. Bem, é da repetição que nasce a beleza. Um dia eu aprendo. Por favor, leve isso em consideração e siga com a leitura.

Não creio que para tornar-se pleno o homem deva experimentar tudo o que a vida lhe ofereça (“até a última todas as experiências”, disse Jung), abraçando Bem e Mal, cultuando Abraxas, dando as mãos a Cristo e a Satanás, tornando-se assim um “liberto”. Mas creio que, invariavelmente, o mistério do Mal envolva, em dado momento de sua trajetória, a cada homem, mergulhando-o numa crise, num naufrágio, uma cisão que praticamente obriga-o a posicionar-se diante da vida. Ou deixar-se levar para o Nada. Creio também que exatamente nesse momento habita a graça que pode levantá-lo.

Ree Dolly, a protagonista do filme Inverno da Alma, está tomada desta graça escondida. E aqui revela-se um significado profundo do termo graça escondida. No filme tudo é frio, cinza, seco e triste. Não há esperança. Não há espaço para sentimentalismos. Até quem ajuda, agride. Ree, uma menina de 17 anos, enfrenta uma mini-odisséia em busca do pai, na qual luta contra tudo e contra todos para poder cuidar dos irmãos e da mãe deprimida. Seu pai, envolvido no tráfico de drogas e fugitivo, empenhou a casa da família, o único bem que lhes resta. Para manter a posse de casa é necessário encontrar o pai, para que este se apresente à justiça. É nessa busca que desenvolve a trama do filme. A graça está presente, mas corre pelos subterrâneos. E impulsiona Ree.

Victor Frankl, famoso psicólogo austríaco, quando queria fazer com que um paciente descobrisse o sentido da vida, o provocava com uma pergunta: “Então porque você não se mata ?” O camarada sempre achava um bom motivo para não se matar. Então, Frankl dizia que era justamente esse motivo o que poderia dar sentido à sua vida. Sendo, assim, Ree, está prenhe de motivos, carregando sobre si o peso da graça. Ao fim do filme, tentando consolar os irmãos, ela diz que não conseguiria viver “sem o peso deles nas costas”. É este o peso da graça.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, num artigo, disse que o filme não oferece um “mapa moral”. Nem precisa. O “mapa moral” o trazemos em nós, naquilo que ainda ousamos chamar de alma. Todo homem é um agente moral. E Ree já tomou sua decisão. Poderia sentar-se e esperar a morte chegar. Mas optou por carregar o fardo da graça, mesmo sabendo que a possibilidade do fracasso é tantas vezes maior do que a da vitória, ao contrário do que canta a teologia da prosperidade. Mas, repetindo Pondé, se“o fracasso nos humaniza”, a graça faz-nos entrar na dimensão do “homem que ultrapassa infinitamente o homem”(Blaise Pascal). Ainda que Ree — e tantos de nós — ainda não tenhamos nos dado conta disso.

15 de agosto de 2011

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