The guitar and other machines

Vini Reilly sofreu um AVC no fim de 2011. Quando comecei a baixar música lá pelo ano 2000, as primeiras bandas das quais quis ter um mp3 foram o Durutti Column e os Cocteau Twins. Vini foi um jovem anoréxico que em 1980 se trancafiou no quarto de casa — enquanto a mãe ouvia tudo dos outros cômodos — e gravou o clássico cult “The return of Durutti Column” (título que inspirou “O Adeus de Fellini” da banda paulistana de Cadão Volpato e Thomas Pappon ) munido de uma drum machine e de sua personalíssima guitarra (entre seus fãs estão John Frusciante, Robert Fripp e, no Brasil, Edgard Scandurra). Para citar uma referência, talvez só os guitarristas do Television tenham feito algo que pudesse tê-lo inspirado. De qualquer forma, seu toque era único. Depois, viriam Johnny Marr, Robin Guthrie, Maurice Deebank…
Reilly já havia tido a sua banda punk, os Nosebleeds, por onde passaram Morrissey e Billy Duff, do Cult (todos de Manchester). Mas ele queria mais. Com formação clássica e um jeito de dedilhar a guitarra e usar os efeitos totalmente diferentes de tudo o que já havia sido feito na música pop, Reilly produziu uma obra ímpar, e a julgar por tudo o que se ouve por aí, não vai deixar herdeiros.
Vini não planejou, como Lawrence Hayward do Felt, conquistar o mundo em dez discos. O seu negócio era a música. A anorexia nervosa transformara-o numa figura pálida e esquálida, quase um fantasma. Vê-lo ao vivo (existem vídeos no you tube, postei dois aqui), acompanhado do extraordinário baterista Bruce Mitchell é ter a sensação de que não é Vini quem segura sua guitarra, mas é sua guitarra quem o mantém de pé. Parece que um último alento de vida — o amor à música — o sustém.
Em seu primeiro momento, o Durutti Column (sempre formado por grupos de amigos que transitavam em torno de Vini…) produziu quatro obras primas onde Vini destilou e eternizou seu estilo: “The return of Durutti Column”, “LC” (sua obra máxima, com uma ode a Ian Cutis, “The missing boy”), “Another Setting” e “Without Mercy” (do qual li uma resenha na revista Bizz lá pelos idos de 1986 e jamais sosseguei até ouvir o disco…).
Vini seguiu, ao longo de toda a sua carreira, produzindo discos, no mínimo, instigantes. É difícil ouvir um disco do Durutti Column sem ser transportado para um mundo onírico, cheio de poesia e suave beleza. A música do Durutti Column é formada por amplas paisagens instrumentais, que vão de influências do blues e do jazz ao clássico, passando pela música pop pura e simples. Às vezes se ouve o fio de voz de Vini ou de cantores emprestados e até vozes sampleadas. O Durutti Collumn também faz uso, desde seus inícios, da eletrônica como elemento muito presente. Entre seus álbuns seguintes, merecem destaque os álbuns “Vini Reilly” de 1989 e “The guitar and other machines”. E os álbuns mais recentes também são sublimes como o excelente “Keep Breathing” de 2006. E não se pode esquecer que Vini Reilly foi o principal parceiro de Morrissey em seu melhor álbum, “Viva Hate” (1988), o primeiro solo. Vini foi o substituto perfeito para Johnny Marr. Compôs, tocou e arranjou magistralmente aquele álbum, que rivalizava facilmente com os melhores momentos dos Smiths. Infelizmente a relação Morrissey-Reilly durou pouco tempo e Vini costuma declarar que as gravações de “Viva Hate” foram dificílissimas, devido ao temperamento inconstante de Morrissey, atormentado pelos distúrbios que levaram ao fim dos Smiths. Depois deste álbum, o “maior inglês vivo” continuou fazendo álbuns memoráveis, mas sempre se ressentindo de um parceiro como Vini Reilly (talvez Mick Ronson tenha preenchido por um breve período, como produtor de “Your Arsenal”, essa lacuna, mas partiu cedo demais, levado pelo câncer).
Reilly continua sendo um queridinho da mídia cult, nas jamais obteve o reconhecimento que sua singular musicalidade merecia ter. Talvez durante o lançamento de “24 Hour Party People”, filme de Michael Winterbottom que documenta um pouco da cena de Manchester, o Durutti Column tenha obtido um pouco de visibilidade. Mas logo passou.
Já li em alguns sites que o AVC deixará algumas seqüelas irreversíveis em Reilly, hoje com 57 anos, mas não o impedirá de seguir tocando e gravando. Assim continuarei habitando universos oníricos.
1º de abril de 2012