O escritor norueguês Karl Ove Knausgård

Knausgård distorcido

De uma maneira ou de outra, todo escritor é narcisista. Victor Hugo afirmava que o grande artista molda a arte à sua imagem. O que dizer então de um autor que resolve escrever um romance sobre si mesmo, com mais de três mil páginas, em seis volumes? Pois é esta a ambiciosa viagem literária do norueguês Karl Ove Knausgård na série “Minha luta”, cujo primeiro volume, “A morte do pai”, mostra que a empreitada vai muito além de uma escrita ególatra.

No projeto, a grande ambição do autor é narrar a experiência humana, a partir do recorte de sua própria história de vida. As comparações com “Em busca do tempo perdido”, monumental obra-prima de Proust, são mais pela amplitude do romance do que pelo estilo da prosa, escrito com uma verve beatnik digna de um febril Kerouac. Aqui não há madeleines e salões aristocráticos. Há neve, solidão, garrafas de cerveja vazias, ambientes fétidos e discos de rock. É um projeto extremamente pessoal no qual as palavras exalam o odor do enxofre de seus demônios; é um exorcismo literário.

A única exceção em sua maneira de regurgitar a narrativa está justamente na abertura do livro, onde um sombrio, elegante e curto tratado sobre a morte abre alas para a bile estilística de sua escrita visceral. Numa entrevista publicada no site da Paris Review, o escritor afirma que o projeto não lhe agradava como leitor: “Enquanto escrevia os seis livros, eu sentia que aquilo não era boa literatura. O que é bom, eu acho, são as cinco páginas iniciais do Livro Um, a reflexão sobre a morte… O resto não segue meu padrão de qualidade.”

Em “A morte do pai”, Knausgård trata de questões universais — amizade, sexo, amor, carreira, família e, é claro, morte — falando de sua adolescência, passada em uma pequena cidade da Noruega, com saltos para a vida adulta. Ele fala de como a música pop foi importante em sua formação, sobre a relação com seu irmão mais velho, Yngve, quando ele se muda para Bergen, como ele o admirava e queria fazer parte de seu círculo social.

Além das estranhas delícias e (muitas) agruras da adolescência, Knausgård esmiúça a transformação do pai, que se torna um alcóolatra com o passar dos anos, forjando a própria morte prematura em um leito etílico de isolamento. Ele vira a cara para os problemas do pai, o trata como um estranho, não se importa com sua vida. Mas, quando o progenitor, enfim, morre, ele sofre ao descobrir a vida miserável que seu pai e sua avó levavam, ambos solitários bebedores contumazes, apoiados na cumplicidade de um vício em comum.

Neste primeiro volume, o autor procura lidar com a perda, a fragilidade da existência e das relações humanas, toda a decadência, a podridão, a sujeira e solidão que viver abriga. É um livro cheio de referências pop e de crueza; um livro que, se não é narcisístico, é uma tese de auto-conhecimento, uma busca para se entender, para passar a limpo a própria trajetória; é uma tentativa de compreender alguns rumos que a vida toma, mesmo que de maneira totalmente arbitrária e impiedosa.

Mas, afinal, em qual prateleira se encaixa “A morte do pai”? Autoficção, autobiografia, romance de formação biográfico?

A busca por enquadrar a obra em um gênero específico se mostra infrutífera. O importante é que a prosa de Knausgård salta das páginas com a mesma energia rebelde das notas distorcidas da sua barata cópia escandinava de uma Fender Stratocaster. Knausgård é um rockstar.

Livro: “A morte do pai (Minha luta 1)”

Autor: Karl Ove Knausgård

Tradução: Leonardo Pinto Silva

Editora: Companhia das Letras

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