Um apelo aos familiares contra correntes de Whatsapp: chega!

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Me vi forçado, dia desses, a rebater uma corrente de Whatsapp sobre política, enviada por uma pessoa muito próxima a mim, que está no topo da minha lista de pessoas que considero.

Eu geralmente ignoro essas coisas. Aliás, ignoro quase tudo de política que mandam via aplicativos de mensagem. Eu passo reto, eu leio as primeiras palavras e quando eu vejo o engodo, eu ignoro e sigo reto. Vídeos e áudios do tipo, então, não passam de 1 segundo na minha mão. Mas, com uma pessoa tão próxima assim mandando tal material, eu não consegui deixar quieto.

Vou deixar claro: eu e essa pessoa sempre estivemos em espectros políticos divergentes, muitas vezes notavelmente opostos. Mas, como somos pessoas sensatas, nunca houve motivo para nenhuma sorte de estranhamento, nunca. — muito pelo contrário, sempre ouvimos opiniões respeitosamente, sem agressividade ou interrupções, mesmo que às vezes balançássemos a cabeça negativamente enquanto conversávamos.

O que me incomodou na mensagem não foi o cunho político da corrente de Whatsapp, mas por a pessoa acreditar no valor de face daquilo, que não tinha uma fonte, uma referência, um link para um site de credibilidade. Não entra na cabeça como há gente que desconfia de jornalismo sério, mas dá trela para esse tipo de coisa.

É possível que algumas das informações dessa corrente até pudessem conter elementos verdadeiros, eu não cheguei a me aprofundar. Mas de 12 itens, três logo de cara eu constatei que eram falsos, ou no mínimo muito distorcidos. Um dia antes eu tinha lido uma reportagem no Estadão justamente sobre o assunto.

No fim, pouco importa se as informações dessas correntes são verdadeiras ou não: o perigo mesmo está em acreditar em uma fonte na qual você não faz a mínima ideia quem seja, com motivos que você não faz ideia quais são, falando coisas que, no geral, você tem pouco ou nenhum conhecimento.

Se chegasse uma corrente de Whatsapp falando que beber água com sulfato de magnésio pode ajudar a prevenir convulsões, você acreditaria? Responda sinceramente: sem conhecimento do assunto, você iria a uma farmácia, compraria sulfato de magnésio, despejaria na sua água e ingeriria o líquido sem nenhuma preocupação, só porque leu em uma corrente?

Se você for uma pessoa sensata, eu consigo prever a resposta.

No mínimo, você faria uma pesquisa própria na Internet, buscando fontes diversas. Ou procuraria se informar diretamente em um lugar que você confia, como com seu médico ou, por que não, naquela sua revista de saúde, no jornal de confiança ou até numa pesquisa acadêmica.

Você saberia, então, que sim, esse sulfato ajuda na regulação da pressão arterial e pode ajudar na prevenção de convulsões de gestantes. (pelo amor, não sai tomando essa coisa só porque eu escrevi aqui, procure um médico)

Mas eu duvido que você sabia disso (eu não sabia até pesquisar). Talvez não soubesse nem o que é sulfato, às vezes nem o que é magnésio. Então por que diabos você desconfiaria disso e não de uma corrente de Whatsapp sobre política, que não dá fonte, nem referência, nem procedência?

Curiosamente, no mesmo dia, após o acontecimento, chegou até mim uma reportagem da BBC, publicada uns dias antes: Pesquisa inédita identifica grupos de família como principal vetor de notícias falsas no WhatsApp.

Até agora não sei se a coincidência me deixou satisfeito por ter rebatido a corrente ou preocupado com o tipo de informação que está sendo transmitida via Whatsapp entre meus familiares sem que eu faça ideia. A reportagem foi baseada em pesquisa do Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP, com cerca de 2.500 pessoas.

Entrando agora nessa época eleitoral e polarizada, gostaria de sugerir a todos os meus familiares, e aos familiares dos outros também, que se informem principalmente por veículos de jornalismo de credibilidade, por fontes primárias ou acreditadas, por especialistas reconhecidos, por artigos científicos e por instituições transparentes, que divulgam seus métodos, seus dados, seus códigos, suas fontes.

Há muitas fontes boas de informação por aí, e correntes de Whatsapp não estão entre elas.

Sim, eu sei que muitos veículos de imprensa sofrem desconfiança de boa parcela das pessoas em espectros políticos variados, quem nem sempre as posições editoriais assumidas por eles nos agradam, que jornalistas cometem erros, que a neutralidade completa só pode ser almejada, nem sempre alcançada. (eu to falando aqui de instituições jornalísticas de verdade, não de sites panfletários e partidários, tanto de esquerda quanto de direita.)

Você pode discordar da preferência política desses veículos, de seus colunistas e de seus artigos de opinião, mas, quando se trata do noticiário do dia a dia, do factual, garanto que são boas fontes, passíveis de erro, claro, mas que fazem bom jornalismo. Para saber quais são, basta notar que as reportagens são mais fundamentadas em relatos, dados e fontes, com pouca ou nenhuma opinião e sem linguagem pejorativa, sem carga de adjetivos e, principalmente, ouvindo o outro lado.

Sempre apliquem uma pitada de desconfiança ao seu noticiário, mesmo de veículos de credibilidade, e sejam críticos da imprensa, para melhorá-la.

Mas peço que não aceitem o valor de face de correntes de Whatsapp e de informações sem procedência que circulam por aí, muitas vezes com argumentos enganosos, e muitas vezes com pura mentira. Às vezes, podem falar a verdade, mas não temos o luxo de nos informar por “às vezes.”

É um apelo que eu faço do coração pra vocês: não existe uma só verdade, a verdade é uma construção erigida entre o factual e as nossas experiências e nossas crenças. Mas existe o fato, aquele que é concreto e não-debatível, e é isso que está em xeque hoje em dia.