Como me apaixonei pelo Jorge

Foi na goteira do chuveiro que o Jorge me conquistou. Porque ele falava da goteira como se fosse só a goteira, mas falando da humanidade. Não sei se isso cabe em linhas. Talvez dito assim pareça loucura ou ato de fanatismo em relação a Jorge. Quem me conhece e conhece o Jorge, e convive comigo e com ele, sabe que meus olhos brilham sempre que o desgraçado começa a falar. E, sim, foi na goteira do chuveiro, no dia em que o conheci. Que ele me deixou assim.

Quando pedi ajuda para tentar fazer a privada parar de jogar a água da descarga fora, foi ele quem veio. Tranquilo, em passos calmos, mas suficientemente rápidos.

Levantou a tampa de porcelana, e empurrou um pedacinho de plástico que estava trancado em uma das laterais. E pronto. O tampão do fundo voltou a fechar. A água parou de correr e ele me sorriu. Nem falei nada. Aí decidi fazer uma piada, porque sou esse tipo de pessoa. E questionei se ele não queria arrumar a goteira do chuveiro também. Aquilo era o inferno. Aquele maldito barulho da gota atingindo o piso era o alvo de minha raiva. Era a justificativa da minha insônia. A goteira era a razão do meu ódio pela rotina desgastante. Pelo meu trabalho de merda que não vai me levar a lugar algum. Mais ou menos isso.

Minha tentativa de humor tinha ido pelo ralo. Estava fazendo um discurso moralista contra o capitalismo em um banheiro de quatro metros quadrados com um cara que tinha acabado de conhecer.

Aí o Jorge, que em nenhum momento tinha tirado aquele sorriso lindo do rosto, disse um “capaz, cara”. Mas um “capaz, cara”, assim, tão calmo. Coloca um balde aí embaixo e usa essa água para dar a descarga de vez em quando. Reaproveita. Mas o barulho vai ser amplificado pelo formato do balde até que ele encha, argumentei.

Essa goteira aqui pode desperdiçar quarenta e seis litros de água em um único dia, falou.

E eu juro que não foi de forma pedante. Jorge podia (até onde eu sabia) ter inventado esse dado. Mas era tão lindo. Era o afastamento de si. Ver o quadro total de situação. Olhar por quem não tem água. No sentido bíblico, se você é de ver sentido bíblico. A goteira que me mantém acordado faz desse mundo um pouco pior. E eu ali, me preocupando com o próprio sono. Com a própria vida.

E desde então eu tô pra comprar um balde toda vez que vou ao supermercado.

Desculpa, Jorge. Sempre esqueço.

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