Deus vem antes do canivete


Quando o bandido me espreme contra a grade do condomínio e começa a pedir que esvazie os bolsos, lembro do moleque que me chamava de senhor e pedia um cigarro algumas horas antes. Estico e entrego o celular e um canivete multiuso que carrego no bolso. O canivete que comprei para proteção.

Quando você se sente desprotegido, mesmo ateu, Deus vem antes do canivete ao pensamento.

O bandido avalia o canivete, faz um sinal de aprovação com a cabeça e começa a usá-lo contra mim. Tiro a carteira do bolso e começo a abri-la. Ele diz que não, que devo entregá-la inteira, fechada. Perco os documentos e os cartões, mas não passo vergonha na frente do bandido por ter apenas doze reais.

Então, ele me libera. Pode ir, ele diz, me cutucando com o canivete que era meu. Eu vou. Ele fica ali, escorado na grade.

“Ah, você mora aqui?”

Não tinha pensado nisso. Talvez eu devesse convidá-lo para subir, tomar um café. Talvez ele vá pedir desculpas, dizer que não assalta o pessoal da região, devolver a carteira e o celular. O canivete não, o canivete ele vai precisar. Ou, talvez ele suba e leve minha televisão — que é meu maior bem.

“Moro”, respondo.

“Tranquilo”

Tranquilo? Sim, muito. Continuou escorado, tranquilo, na grade cor verde-floresta enquanto eu giro a chave na segunda porta de acesso ao prédio. Aperto o botão para chamar o elevador que, segundo o mostrador, estava no décimo segundo andar. Trinta segundos depois a porta está aberta e a luz amarela do elevador me chama para apertar mais um botão. Aperto o cinco e me viro para o espelho.

Meu rosto está com alguns fios de uma barba já rotineiramente por fazer e meus olhos caídos, como bananas que ficaram tempo demais no pé. Meus cabelos, outrora loiros, têm agora uma tonalidade acinzentada como se eu tivesse passado por um pátio de obra e derrubado cimento na cabeça. As entradas no cabelo dão a impressão que minha testa é gigante, mas, ainda assim, o cabelo continua crescendo vasto e sem formato aparente.

Ainda mirando o espelho, vejo a porta abrir às minhas costas. Mais confortável seria caminhar em direção ao espelho e sumir de mim mesmo. Como sou poético. Tento sorrir para o espelho antes de sair do elevador e o resultado é péssimo. Tarde demais para ter esse tipo de devaneio. Tarde demais para sorrir. Giro nos calcanhares e saco a terceira chave, dessa vez para a porta do apartamento 503.

Os inquilinos dos apartamentos da frente — os de número par — têm uma boa vista. Sei disso porque a corretora que me vendeu o 503, três anos atrás, me levou ao 502 antes, que estava vago na época. Do 503 a vista é a parede cinza do muro que nos separa do conjunto habitacional vizinho.

Chamam de conjunto habitacional quando é para pobres.

Um belíssimo muro cinza de seis andares. Do sétimo andar para cima, os apartamentos de número ímpar conseguem ver os vizinhos. Paguei 10 mil reais mais barato por abdicar da vista da cidade iluminada. Arrisco dizer, enquanto acendo um cigarro, que eu e o inquilino do 502 estamos olhando para a mesma coisa nesse momento.

A televisão.

O jornal sinaliza as áreas da cidade que tem sofrido mais assaltos e eu acabo o cigarro.

Sirvo um copo de vinho para esquentar o corpo e ligo o chuveiro para esquentar o banheiro.

O banho e o corpo ficam quentes como o inferno deve ser. Faço com que seja rápido, não quero perder muito tempo. Quero voltar logo para a poltrona confortabilíssima que comprei em dez vezes no cartão aonde me sento menos de dez vezes por mês.

No processo, esqueço de lavar uma axila. Mas não perco a novela.


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