Processos em carne-viva

Esse invólucro o qual nos habituamos a habitar desde a saída do útero, a folha da figueira cobrindo a nudez dos primogênitos da Terra. Enterramos nossos mortos vestidos com suas melhores roupas, exceto os indigentes. Aos corpos-mortos etiquetados é vetada a naturalidade de suas formas. Nascemos nus e ao primeiro contato com o ar somos envolvidos por uma segunda-pele, desvelada somente em momentos de intimidade, no banho e no sexo (envolvidos por água como num útero e em tentativa de criar relação de unidade, na umidade de outro corpo).

Procurando sinônimos para nudez encontro “naturalidade”, porém é evidente que na cultura em que estamos inseridos, o corpo nu quando posto em frente ao olhar do outro, é recebido com discursos e reações opostas ao conceito de natural, aquilo que é visto com estranhamento, não pertence a natureza, está deslocado, ou ainda, é natural mas por pertencer à natureza quanto a ser imbuído de ações transformadoras. O corpo recebe roupagens, julgamentos de valor e de moral que constroem, em torno de si, camadas invisíveis, segundas, terceiras, quartas-peles de material resistente e impermeável. Cascas duras. Não é a toa que dói tanto a rachadura do ovo.

Há nudez crua? A carne-viva exposta?