Piracicaba: Lugar onde o povo parou.

“O aluno não saiu para estudar pois sabia que o Professor também não tava lá.”

A Rua XV de Novembro em frente ao INSS ficou bloqueada pelos manifestantes durantes as falas dos participantes — Foto: Jaqueline Altomani

Estudantes e trabalhadores de Piracicaba se reuniram na última sexta-feira (28) na Praça Antônio de Pádua Dutra, ao lado do Terminal Central de Integração (TCI) da cidade, para dar início á manifestação da Greve Geral. Os participantes também saíram em passeata em direção à Avenida Armando Salles, Rua Governador Pedro de Toledo e Rua XV de Novembro — na qual pararam em ato com batucadas, canto e palavras de ordem. O objetivo foi demonstrar indignação contra as reformas do Governo Federal: trabalhista e previdenciária.

Foto: Jaqueline Altomani

Ainda durante a madrugada do dia 28, o peixe que dá acesso ao portal da cidade foi pixado com a frase: “GREVE GERAL”. Em atos espalhados pelo Brasil inteiro, construídos pelas Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, em Piracicaba chegou a mobilizar por volta de 1.500 á 2.000 pessoas que passaram pela manifestação na cidade onde o peixe para, que também contou com a presença de sindicatos como o dos bancários, dos professores da rede pública e da privada, dos metalúrgicos e centrais como a força sindical. O ato teve uma duração de aproximadamente 6hrs, tendo iniciado oficialmente às 8hrs e se encerrado próximo às 14hrs.

Logo na entrada da Cidade pela Rodovia Luis de Queiroz (SP-304) o aviso estava dado.
Trabalhadores e Estudantes reforçam o comboio de ônibus parados no terminal central. — foto: Viviane Alves do Nascimento

Os trabalhadores do transporte público da cidade se mobilizavam na garagem da empresa Via Ágil para impedir a circulação dos ônibus durante a greve. Pela manhã a Polícia Militar esteve no local e intimidou os funcionários à voltarem ao trabalho, por ordem de uma decisão judicial de primeira instância do Juiz Wander Rosset da Vara da Fazenda Pública, que deferiu uma liminar determinando que 70% da frota voltasse a circular. Apesar da decisão judicial o primeiro ônibus com linha que atende hospitais saiu da garagem as 6h40m da manhã e e os demais apenas voltaram a circular normalmente à partir das 11hrs, até esse momento ocorreu a circulação reduzida da frota, mas nenhum ônibus entrou ou saiu do terminal central da cidade até esse horário. A decisão liminar só foi deferida após o Desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15) Edmundo Fraga Lopes negar o mesmo pedido feito pela Via Ágil para que o sindicato mantivesse pelo menos 30% dos ônibus em atividade. A Vara da Fazenda Pública entendeu diferente da Justiça do Trabalho, com isso o sindicato pode ser multado em até R$ 1 milhão de reais conforme a decisão judicial pelo descumprimento da ordem.

Thiago Nalesso, 41, advogado, mestre em direito, ex-candidato pelo PSol à prefeitura municipal na última eleição, também coordenador do curso de direito na Unisal — Centro Universitário Salesiano de São Paulo em Americana/SP, analisa da seguinte forma:

“Há uma tentativa de criminalização dos movimentos sociais e do direito de greve, uma das poucas formas de autotutela permitidas. Isso ocorreu no período da ditadura militar e volta a ser uma estratégia de setores da classe política comprometidos com o grande capital. A manifestação é feita justamente para incomodar. A estrutura legal e judicial brasileira, em grande parte está comprometida com uma visão ideológica favorável ao capitalismo globalizado, o que faz com que o direito a obter aquilo que a Constituição prescreve seja visto como ilegal.”

José Antônio Soares Júnior, 27, deu aulas de Biologia na E.E Pedro Moraes Cavalcanti e atualmente leciona na E.E Professor Elias de Mello Ayres. Presente no ato de sexta-feira, ele relembra a greve feita há dois anos atrás pelos professores do estado de São Paulo e que durou 93 dias de mobilização com o objetivo de reajuste salarial — Os professores reivindicavam 75,33% para equiparação salarial com as demais categorias com formação de nível superior. O governo diz ter dado reajuste de 45% em quatro anos, na época.

“O momento atual urge por ações organizadas da classe trabalhadora e nós, professores, temos de assumir essa desafiadora tarefa. No estado de SP as mudanças trabalhistas das últimas décadas só fizeram dividir e precarizar nossa categoria, bem como sucatear o sistema educacional público, convertendo as escolas em instituições sem projeto, sem significância, sem vida.” E complementa: “A greve é de vital importância, pois é nela que conseguimos nos enxergar, trabalhar coletivamente e assim avançar nossa consciência enquanto classe! Os obstáculos serão inúmeros — bloqueio midiático, ações jurídicas do governo, corte de ponto, descrença. Mas temos de lutar e a paralisação se apresenta como legítimo instrumento de resistência.
Foto: Jaqueline Altomani
Sara Montrazio — Foto: Jaqueline Altomani

Um bloco foi unificado entre estudantes de todas as idades do próprio movimento como o dos Estudantes Secundaristas e o Levante Popular da Juventude — LPJ, que também abrange os universitários, Guilherme Gandolfi, 22, membro do LPJ, comenta “Estamos em um processo de convencimento da importância de se manifestar, mesmo das pessoas que não aderiram, pois muitos dos trabalhadores e demais (pessoas) que não via ali presentes demonstravam apoio ao que estávamos fazendo. É um longo processo de desconstrução no qual o caminho não é o confronto e sim o diálogo.

Durante o protesto as lojas do centro da cidade fecharam suas portas e alguns trabalhadores do comércio por onde os manifestantes haviam passado aderiram à pauta e foram participar da manifestação, mas muitos preferiram não fazer nada. Porém, algumas lojas grandes e conhecidas como Marisa, Demanos, Humanitarian, entre outras, não permitiram que seus funcionários deixassem o posto de trabalho mesmo em estado de greve, abaixando suas portas mantendo a permanência dos seus funcionários no local. “Na época da industrialização os patrões prendiam seus funcionários dentro das fábricas para elas não irem nos protestos, isso se repetiu mas em lojas”, lembra a estudante secundarista Sara Aparecida Montrazio, 17, da E.E Pedro Moraes Cavalcanti.

Uma das funcionárias da loja de uma operadora de celular, que pediu para não ser identificada por medo de perder o emprego, nos concedeu um depoimento sincero demonstrando como a desinformação favoreceu os receios de muitos trabalhadores de aderir à greve:

“A loja fechou, ficamos para dentro. Ninguém disse que tínhamos que estar lá para assistir ou para escutar, não foi passado nada disso. Simplesmente, nos fecharam e ficamos aguardando dentro da loja, que ainda tinha alguns clientes. Continuamos atendendo lá dentro e depois quando percebemos que a manifestação havia acabado abrimos de novo. Não vimos nada, apenas ouvimos alguns ruídos e algumas músicas dos participantes do ato. Tivemos pouca informação a respeito, o sindicato responsável não explicou muito. Foi aconselhado que fechássemos na parte da manhã e a empresa que eu trabalho se pronunciou dizendo que como já se paga vale transporte, deram a entender que tínhamos que se virar, no dia fui de carona. O pessoal da loja começou a ficar com medo no decorrer da greve e a impressão que eu tive foi que os donos de lojas não estão se importando com a gente. Mas eu também não conheço muito sobre a reivindicação que estava ocorrendo, vi algo sobre terceirização e não tenho muito tempo para me informar, mas quando tive tempo, a mídia também não deixou muito claro como seria”

Ouvimos também relatos de um trabalhador que ocupa um cargo de chefia em uma grande empresa na capital(que também pediu para não ser identificado pelos mesmos motivos), confirmando que reuniões prévias foram realizadas com o intuito de discutir a pauta da paralisação geral do dia 28, objetivando criar soluções que evitassem a falta dos funcionários mesmo com a paralisação dos ônibus, inclusive ouve relatos de que uma grande emissora nacional (que não será revelada para preservar a fonte) emitiu notas para pagamento de taxisis para seus funcionários não aderirem à greve.

O papel da mulher em uma greve

Mayra Cristina — Foto: Jaqueline Altomani

Mayra Kristina Camargo, 42, professora e líder comunitária, participa sempre que pode nos protestos que lutam por uma sociedade mais justa.

No dia anterior a greve, fez um cartaz em que fala sobre a questão da mulher negra. Em seguida, percebeu que isso também está relacionado à sua realidade na periferia “Uma grande parte dela (periferia) é composta de mulheres negras, e de famílias matriarcal, já fiz em casa, pensando no recorte que a sociedade tem que fazer quando trata-se de questões como essa das reformas e tantas outras. Na sociedade existe uma pirâmide financeira e consequentemente de maus tratos, onde a mulher negra aparece por último, na base. Homem branco, Mulher branca, Homem negro, Mulher negra na base e com os piores salários, ou seja, seremos as mais prejudicadas.”, relata Mayra que também é professora do ensino público.

Ela reflete ainda os impactos da reforma no cotidiano do trabalhador:

“Essa reforma é insana, pessoas da periferia tem empregos com mão de obra pesada, já fazem bicos (trabalho informal) pra somar no orçamento, aumentar o tempo de trabalho é escravidão. A possibilidade de negociar com patrão será algo no mínimo utópico, como por exemplo, dar a eles (patrões) a chance de parcelar as férias. Enfim, nada bom para os desfavorecidos de sempre.”
Fotos: Jaqueline Altomani

OS SINDICATOS

Um dos pontos mais discutidos durante o decorrer da greve foi a questão sindical e a linha tênue entre até que ponto ela defende ou não os direitos dos trabalhadores. Guilherme Gandolfi do LPJ, se posiciona a respeito:

O levante entende que os sindicatos são uma conquista histórica da classe trabalhadora, a população tem o direito de se sindicalizar e temos que reconhecer que eles são responsáveis por diversas conquistas trabalhistas. Por outro lado, nem sempre as direções tomadas representam os interesses dos funcionários ou a importância dos atos. Nesse caso, é necessário que cada grupo paralise sua categoria.

Thiago Nalesso, pondera:

Thiago Nalesso de camiseta amarela segurando a bandeira do seu partido na manifestação Foto: Jaqueline Altomani
“Muitas das lideranças sindicais que percebem hoje o ataque de um governo ilegítimo aos direitos dos trabalhadores, deram a este mesmo governo o apoio para a tomada de poder. Partidos, sindicatos, clubes ou qualquer outra associação dependem do acompanhamento coletivo de seus membros para que não se desviem dos seus verdadeiros objetivos.

Mayra Kristina Camargo, também tem uma opinião sobre esse tema:

No começo, já que cheguei, confesso que estranhei ver certos sindicatos, principalmente quando vi o dos Municipais lá. Não sei dizer quais os que não apoiaram, dando respaldo aos trabalhadores que assim quisessem participar, mas quanto ao sindicato dos municipais digo que ligamos (eu e outros funcionários públicos) o dia todo em busca de informações, e a mais próxima a um apoio foi a de que depois tentariam algo perante a prefeitura caso alguém resolvesse aderir à greve, até porque, eles deixaram claro que não tiveram a leitura de uma greve geral, mas sim, uma paralisação. Sendo assim, não teriam muito o que fazer a nosso favor. Por isso escrevi lá na hora, um cartaz onde digo que terei perda salarial por não apoiar ladrão. Foi no impulso.”
polícia apenas acompanhou o ato dessa vez

Apesar da paralisação geral na cidade, que incluiu o transporte público, e da presença numerosa de polícia presente não ocorreram incidentes nem prisões por conta da greve na cidade, o ato decorreu até sua finalização com muitas falas ressaltando a permanência da luta e da resistência do povo nas ruas contra as reformas do governo, e a promessa de que novos atos ocorram nesse dia 1º de maio Brasil afora, e ainda de que novas paralisações podem vir a ocorrer se as reformas não forem barradas no congresso nacional.

Foto: Jaqueline Altomani
A Rua XV de Novembro permaneceu bloqueada até o momento final do ato.

No Brasil

Momento exato da agressão — Foto: Ponte Jornalismo

A paz não reinou em todos os lugares, e em Goiânia aconteceu o caso mais grave de abuso de autoridade e violência policial, um estudante da UFG, Mateus Ferreira da Silva , 33, sofreu traumatismo cranioencefálico, com múltiplas faturas e permanece internado na UTI em estado gravíssimo respirando com ajuda de aparelhos, segundo publicou a Revista Fórum há uma suspeita de que o agressor do estudante seja o próprio comandante da PM de Goiás Coronel Divino Alves de Oliveira, que inclusive se manifestou sobre o caso repudiando a atitude do agressor, porém a secretaria de segurança pública ainda não informou a identificação do policial que feriu o estudante, e pode leva-lo ainda á óbito. A agressão que ocorreu justamente durante os atos da greve geral que atingiu todo o país no último dia 28, foi registrada por diversas fotos e um vídeo que facilita a identificação do agressor, que não prestou socorro deixando a vítima agonizando no chão, socorrida pelos próprios manifestantes momentos após o violento golpe que atingiu sua cabeça.

Em São Paulo

Luciano, Ricardo e Juraci presos durante a Greve Geral na sexta feira (28)

Na capital paulista o abuso de autoridade se consumou em um ato de criminalização do movimento grevista, com a prisão de três integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto — MTST, acusados de causar incêndio e explosão. O pedreiro Luciano Antônio Firmino, 41, o frentista Juraci Alves dos Santos, 57, e o motorista Ricardo Rodrigues dos Santos, 35, tiveram suas prisões convertidas em preventivas pela Juíza Marcela Filus Coelho sob a alegação de manutenção da ordem pública, mesmo sem evidências materiais da autoria dos crimes que são acusados, com base no depoimento dos policiais as prisões foram mantidas.

Dentro desse cenário controverso de críticas ao governo federal, sem muito acompanhamento da mídia convencional, no dia em que a greve se instalou no país inteiro, no lugar onde o peixe para, o povo parou e, protestou.

Texto: Lais Seguin — Repórter SUP
Fotos: Jaqueline Altomani — Fotógrafa/Repórter SUP

de 1907 pra 2017 aparentemente muita coisa mudou, mas fundamentalmente o que mudou? Foto: Jaqueline Altomani
SUP-Mídia Livre
Serviço de Utilidade Pública — livre-comunitária-popular-documentarista.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.