A filosofia pop

Artigo de Márcia Tiburi para a Revista SescTV

A expressão Filosofia Pop é ouvida pelo menos de dois modos hoje em dia. Para quem tem simpatia pelo universo do “pop” a associação com a filosofia pode soar curiosa. Já quem se dedica a estudar filosofia com cuidados históricos e epistemológicos sente, no mínimo, certo desconforto quando ouve a reunião dos termos “filosofia” e “pop”.

Antes de concordarmos ou não com o que possa vir a ser Filosofia Pop, temos que saber que ela se tornou um fenômeno que merece cuidado filosófico, como qualquer tema ligado à cultura. Não podemos nos negar à reflexão sobre o tema, o que significa, sem preconceitos, prestar atenção nele tendo em vista justamente o que nos incomoda. O preconceito não será incomum. Mas mesmo em certos contextos do campo acadêmico, berço dos preconceitos intelectuais, a seriedade da investigação, substituindo a crítica abstrata, faz da Filosofia Pop um objeto de estudos como outro qualquer. Há várias pessoas estudando seriamente a Filosofia Pop.

Não será possível compreender o que vem sendo chamado de Filosofia Pop se não estivermos atentos para uma armadilha na qual a filosofia, como qualquer área, cai com facilidade. Trata-se da armadilha da “distinção”, no sentido de Pierre Bordieu, relativamente à “nobreza acadêmica”. Quanto a isso, podemos dizer que a necessidade que o campo filosófico tem da distinção da filosofia em relação a outras áreas atrapalha, de certo modo, o avanço da própria filosofia.

Mas a questão da distinção nos coloca diante de outros problemas profundos e pouco levados a sério. Um deles diz respeito às fontes implicado diretamente na questão da nobreza. Filosofia Pop é um modo de pensar filosófico, ou seja, um método, que se faz questionando a necessidade da nobreza das fontes. Em outras palavras, se a filosofia tradicional é feita a partir dos textos de filósofos de uma determinada tradição, a filosofia pop é aquela que, em um sentido muito simples, se realiza a partir de outros textos, não apenas da tradição greco-latina. Ela tem relação direta com a filosofia crítica enquanto está atenta aos conteúdos obscuros de sua época, enquanto eles são culturais. A Filosofia Pop é uma filosofia da cultura atenta aos conteúdos desprezados de um tempo. Em nossa época, estamos obrigados a pensar na questão da indústria cultural. Podemos dizer que a Filosofia Pop é a filosofia crítica da indústria cultural que assume o padrão de produção da cultura de nossa época para compreendê-lo.

Na Filosofia Pop, prepondera o método. À pergunta “como fazer filosofia?”, ela responde a partir de fontes não usuais e dos conteúdos do seu próprio tempo. Em termos bem simples, a Filosofia Pop é uma filosofia do contemporâneo com alto teor de experimentação dialógica com outras áreas de pesquisa, com as artes, com outras fontes, com outros métodos. A Filosofia Pop se faz a partir da vida em seu sentido político e cultural. Com a filosofia pop está em jogo o que a filosofia pode e deve pensar, o que pode se tornar “assunto filosófico”.

A Filosofia Pop é aquela que se deixou afetar pelo pop. De que pop falamos? Há pelo menos dois tipo de pop. Conforme a classificação de Charles Feitosa, autor de um texto seminal sobre a questão, o Pop I está ligado ao campo cultural do pop, relacionado também à Pop Art e interessa enquanto maneira de fazer filosofia, já o Pop II está ligado ao sucesso puro e simples, e não interessaria como maneira de fazer filosofia.

Mas o que chamamos hoje de Filosofia Pop tem também uma pré-história. A Filosofia Pop pode ser considerada a herdeira histórica da área da estética filosófica, aquela que se ocupou de certos conteúdos desprezados pela razão e pela teorização tradicionais, a saber, o corpo e a arte. De todas as subáreas da filosofia, a estética é a mais interdisciplinar, aquela que mais se relaciona com outras teorias e que permite as investigações e a criação das metodologias mais ricas, o que acontece em conjunto com a ética, a política, a epistemologia, a filosofia da linguagem e, não é exagero dizer, também com áreas tão novas como a filosofia multicultural.

Para além da história da filosofia, sem esquecer dela, a filosofia experimenta hoje uma autotransformação importante. Essa transformação a aproxima das formas da cultura e da vida cotidiana, tanto mais vazias de pensamento, quanto mais a filosofia se esquece delas. A Filosofia Pop é a proposição altamente filosófica de um diálogo da filosofia com seu tempo, tendo em vista as formas de viver e pensar das pessoas que constroem seu tempo. Nisso, a intenção da Filosofia Pop é devolver o pensamento às pessoas para que elas possam integrá-lo às suas vidas.

Marcia Tiburi é filósofa, escritora, professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e apresentadora da série Filosofia Pop, exibida pelo SescTV.

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