A voz além das aldeias

Tradição e tecnologia se unem para manter vivos os costumes dos povos indígenas

Foi na aldeia Primavera, da etnia Rikibata, localizada a 15 horas da região de Cuiabá, que no ano de 2017 índios de diferentes etnias se uniram na luta contra a destruição do rio Juruena, um dos mais importantes da bacia amazônica do Tapajós. O jornalista Anápuáka Muniz, da etnia Tupinambá, estava no coração da Amazônia para mostrar ao Brasil um pouco do movimento de resistência de seu povo, na luta pela preservação do rio.

Sob a copa de uma árvore, Anapuáka comandou um programa de rádio chamado Apakbaha. Convidou duas mulheres indígenas para conversar sobre o papel feminino na preservação do rio Juruema e das populações ribeirinhas. No segundo quadro do programa, outros dois indígenas falaram da experiência de criar um podcast e sobre o uso da comunicação como ferramenta de conscientização.

É dessa forma que a Yandê, a primeira web rádio indígena brasileira, reafirma o processo colaborativo vivenciado nas aldeias e difunde sua cultura. A partir do conceito “tudo que fazemos juntos fica melhor”, a Yandê utiliza os recursos tecnológicos e o alcance da internet como instrumentos alternativos para os povos indígenas, mesclando comunicação e ativismo.

Para falar sobre a preservação dos costumes indígenas, em meio ao desenvolvimento tecnológico, o SescTV conversou com Anápuáka, que é especialista em comunicação e meios digitais. Ao lado da jornalista Renata Aratykyra, da etnia Tupinambá, e do publicitário Denilson, da etnia Baniwa, ele fundou o grupo de comunicação e a Rádio Yandê, um importante ponto de mídia indígena livre que iniciou suas transmissões em 2013. Anapuáka também é criador do conceito de Comunicação e Etnomídia Indígena Brasileira, prova de que fazer comunicação alternativa e independente é possível e necessário.

Anápuáka Muniz (Foto: Divulgação)

O que significa Yandê? E por que criar a rádio?

Yandê em tupi antigo quer dizer eu, nós ou ele. A rádio é uma mídia indígena em streaming, criada no ano de 2013. Eu procurei por muito tempo entre o meu povo alguém que transitasse pelo universo da comunicação, ativismo, cultura pop e diversidade. Trabalhei em produtoras de vídeo, jornais e rádios, mas sempre me perguntava por que não tínhamos nossa própria mídia, nosso espaço.

Você elaborou o conceito de Etnomídia Indígena. O que é e qual a sua aplicação?

São os processos de comunicação aprendendo e respeitando os ritos que permeiam a vida dos indígenas. A etnomídia indígena acontece quando as ferramentas da comunicação ficam à disposição dos os povos originários, que a utilizam a partir de um viés cultural, respeitando sua ancestralidade, forma de comunicar e rituais dentro das plataformas. Essa consciência é criada aos poucos, durante o processo de construção de oficinas, nas aldeias.

Anápuáka em entrevista durante a transmissão da Rádio Yandê (Foto: Divulgação)

Como a Yandê é recebida pelos povos indígenas?

Para os indígenas a rádio ainda é uma novidade. Eles querem ouvir suas músicas, contar histórias e mandar notícias. Quando compreendem esse espaço, passam a ser colaboradores. Embora as aldeias tenham baixa conectividade, elas recebem nosso conteúdo através de podcasts gravados de um aplicativo de compartilhamento. Os povos mais próximos das cidades ouvem a rádio pelos celulares. É uma questão de políticas públicas as aldeias não terem acesso a rádio, mas nossa missão como mídia étnica é amplificar suas vozes.

Seis anos após sua fundação, qual a importância da primeira rádio indígena brasileira e seu alcance?

A Yandê chega em mais de 80 países, com 2 milhões de ouvintes no streaming. Nossas redes sociais somadas alcançam mais de 60 mil pessoas. Somos referência na América Latina e até na Oceania. Chegamos com protagonismo, muita vontade e sem dinheiro. Mantemos a rádio com doações e verbas recebidas por prestação e serviços de consultoria. Hoje, a Yandê ganhou mais autonomia, se tornou a essência viva que muda os paradigmas da comunicação indígena no país.

Quais ações da rádio colaboraram na luta pela preservação da cultura indígena e demarcação de terras?

Criamos, no ano de 2012 a #SouGuaraniKaiowa, para uma campanha que mobilizou milhões de pessoas pelas redes sociais. Chamamos a atenção para o genocídio do povo Guarani Kawoa, no Mato grosso do Sul. O mundo olhou para o caos que existe nos processos de políticas públicas e no extermínio dos povos indígenas no Brasil. Também fizemos a campanha #MinhaCultuaranãoéFantasia, sobre o uso de adornos e indumentárias indígenas de forma banal, durante o carnaval.

Equipe da Rádio Yandê (Foto: Divulgação)

Vocês recebem muitas músicas, criaram até mesmo um festival. Qual é a importância dele?

É o YbY Meca Festival, que acontecerá em dezembro deste ano, em São Paulo. Participarão do evento rappers indígenas como os Wera MC & OZ Guarani, de São Paulo, os Bros MC’s, do Mato Grosso do Sul e o Jean Ramos de Pernambuco, que faz MPB. Tem também a Arandu Arakuaa, banda que faz heavy metal em tupi — guarani. Simultaneamente haverá um desfile de moda da designer Deny Katuel; uma instalação de realidade virtual e bate-papos. Será um ritual de imersão, sob o ponto de vista dos povos tradicionais da Amazônia.

Quais são os erros cometidos por meios de comunicação em geral, ao falar dos indígenas brasileiros?

As mídias nos chamam índios e, portanto, uma coisa só. Somos mais de 300 etnias no Brasil, povos originários, tratados como invasoras de territórios. Os livros de história abordam de maneira equivocada a questão da invasão e dos chamados “descobridores”. Na maior parte dos casos há uma estupidez midiática, uma falta de compreensão dos profissionais ao achar que aprenderam tudo sobre os povos indígenas nos livros de história.

Em abril e maio, o SescTV apresenta a programação especial Territórios Indígenas, com a exibição de filmes premiados e que contemplam diferentes etnias em diversas regiões do país. Com a exibição dessas produções, o canal participa do projeto Abril Indígena realizado pelo Sesc São Paulo em suas unidades.

Alguns documentários já estão disponíveis on demand no site do canal, assim como os oito episódios da série Índios em Movimento; você pode asistir quando quiser, gratuitamente, sem a necessidade de cadastro.