O povo que veio do rio

Influenciados pelo homem branco, os baré já perderam seu idioma e lutam agora para manter viva sua história através de crenças e ritos.

Ao longo do Rio Xié e alto curso do Rio Negro, no noroeste da Amazônia, vivem aproximadamente 10.600 barés. Oriundos da família linguística aruak, já não falam mais seu idioma original, desaparecido por volta de 1950. Falam nheengatu - língua introduzida por jesuítas no século XVIII - e português, difundido a partir de 1914 entre os povos da região. “Antigamente, os baré sabiam sua língua. Eles falavam até morrerem nossos pais. Meu pai morreu e meus irmãos já não falam baré, só falam nheengatu. Eles queriam falar a língua dos brancos. Por isso, eu não sei falar baré”, conta um dos membros do grupo.

Divididos em comunidades, como Iabi, São Francisco, Cué-cué, Acariquara, Cartucho, Canafé, Tabocal dos Pereiras, Campinas do Xié e Campina do Rio Preto, vivem às margens do rio e tiram dele proveito para suas atividades: transporte, lazer, higiene pessoal, pesca e preparação de alimentos. “A gente usa muitos tipos de feitoria no peixe. Cozido, assado, cozido no tucupi, mujeca… Tudo peixe. Isso é típico dos baré”, contam. Além da pesca, praticam agricultura de subsistência com mandioca, abacaxi, batata, banana, cana, caju. Fazem farinha, beiju e tapioca, entre outros pratos.

Apesar do contato com o homem branco, os baré ainda mantêm vivas tradições, como o kariamã, rito masculino de iniciação para a vida adulta, onde são repassados conselhos e ensinamentos sobre como viver na floresta. Os jovens passam uma semana em jejum, isolados do restante do grupo, e aprendem a fazer utensílios, caçar e tocar seus instrumentos sagrados, os xerimbabos. “É proibido ver, pode gravar o som, mas não (pode) ver”, alertam sobre o ritual secreto. Ao final, a comunidade se reúne em um momento de expiação para tirar o saruãsa do corpo com uma surra de adabí, vara trançada com fiapos de palmeira. “Nós somos católicos e na igreja dizem que temos pecados. Para poder ter o espírito e o corpo bem limpos, tem que se confessar com o padre”, compara um dos baré. “Para nós, o saruãsa é da mesma forma. Todos nós temos esse saruãsa. Então, a gente tira com benzimento, com surra”. Os que se recusam a participar põem em risco a tradição. Para os mais velhos, isso mostra que alguns não querem mais saber das histórias de seu povo, e reforçam “Não podemos trocar nosso sangue pelo sangue do branco. Não podemos trocar nossa etnia”.

Os costumes do grupo, seus ritos e crenças foram captados pela diretora Tatiana Toffoli no filme Baré: Povo do rio, que o SescTV exibe dentro da programação Territórios Indígenas, que acontece durante os meses de abril e maio, com documentários exibidos na TV e disponíveis no site do canal.

O documentário é parte do projeto homônimo elaborado pelo Sesc São Paulo, que resultou ainda na publicação de um livro pelas Edições Sesc São Paulo.