Fintech 2: para onde foi o dinheiro?

Investimento em fintechs brasileiras.

Esse é a segunda edição (de uma série de 3) que resolvi publicar sob o ponto de vista de um empreendedor à frente de uma fintech. Espero que estejam gostando :)

A primeira foi publicada aqui.

Sonho do investidor é achar um unicórnio. Do empreendedor: é se tornar. Fonte: Giphy

Para esse segundo texto, decidi escrever para o mesmo público: empreendedor, investidor e executivo. Importante saber que essa é uma análise extremamente pessoal.

Fundos de investimento não gostam de fintechs?

Essa é uma dúvida comum e bem difundida pelos empreendedores do segmento. Realmente existem pouquíssimos acordos envolvendo fundos Venture Capital, Private Equity e Seed com fintechs dessa nova geração.

Tenho algumas sugestões do porquê dos deals não estarem sendo feitos à proporção que as startups desse segmento atraem atenção do mercado. Parecem ser inclusive, movimentos antagônicos: quanto mais atenção as fintechs recebem, menos acordos com fundos institucionais são realizados.

Vamos às teorias dos motivos que fazem os investidores fugirem.

Regulamentação

Para um mercado altamente regulado (e protegido) por órgãos verdadeiramente rígidos, as fintechs têm por si só, uma grande barreira para entrarem no jogo das finanças. Isso amedronta alguns investidores. Outro ponto importante é que em um ambiente com esse nível de regulação, sempre existe um player dominante (e extremamente rico) que oferece risco ao negócio como um todo. Estou falando de bancos, seguradoras, corretoras, financeiras e adquirentes que dão as cartas na mesa do segmento. Foram anos construindo reputação e relacionamento, para terem o mercado na mão. Por que uma fintech conseguiria tudo isso rapidamente?

Uma das principais perguntas que eu mesmo me faço é: “você colocaria todo o seu dinheiro numa fintech?” Pode não ser o seu ponto de vista, mas o investidor pensa assim.

Mercado com players dominantes

A pergunta final do item acima é ponto mais crítico (que observei) ao conversar com investidores institucionais e anjos que investem em fintechs. Pode parecer besteira, mas:

  • Como a fintech vai concorrer e bater de frente com uma instituição financeira que tem milhares de agências bancárias?
  • Como que uma fintech de pagamento vai concorrer com um player bilionário? — perguntam.

A resposta é simples: com inovação.

Para inovar, o banco tenta usar diversas formas de atuação:

  • montam laboratórios de inovação;
  • contratam CIO’s e;
  • aceleram programas para se conectar com as startups.

Na prática, são grandes transatlânticos tentando virar para uma direção que não conhecem. A fintech, por conta de nada ter a perder, atua como uma velocidade sem igual, fazendo o dever de casa que é testar muito e corrigir rapidamente o erro. Ainda assim, tem o risco.

Se o empreendedor não conseguir provar, numa tese boa e obviamente com números, que o dinheiro do investimento não vai se tornar um cardume de sardinhas pronto para ser devorado pelo “bancão”, o investidor tende a passar o deal. A barreira de entrada não é grande, se um tubarão quiser entrar no negócio da fintech. Na maioria das vezes, a tese não é tão bem fundamentada pelo empreendedor. Na maioria das vezes os pitches são pautados pela incompetência tecnológica e pela falta de agilidade dos bancos. Quando deveria, ser o preenchimento de uma lacuna grande e potencialmente bilionária, que nem os bancos estão conseguindo resolver.

O bom é ter em mente que a maioria dos investidores já sabe que as fintechs que estão no elo mais sensível da cadeia, terão mais trabalho para conter o avanço dos bancos.

Necessidade de capital

Olha que loucura. Se a fintech precisa de dinheiro, não precisaria do investidor para viabilizar a solução do problema?

Alguns tipos de fintechs, precisam de uma quantia considerável para crescer e entregar garantias no mercado para poder operar. Fintechs de cartão de crédito, sub-adquirentes, adquirentes e etc, precisam de garantias (fianças, seguros e depósitos em grana preta) para que bancos e bandeiras considerem a abertura de licenças para que a fintech opere. O investidor nesse caso, fica com medo, pois o dinheiro não vai para o crescimento da operação em si, e sim, para garantir as licenças. Na prática é dinheiro parado (sem liquidez) só para o negócio da fintech funcionar. Estou falando de milhões. Por incrível que seja, o investidor analisa o saco sem fundo que isso pode se tornar, se a fintech crescer aceleradamente e necessitar de garantias ainda maiores.

Empreendedor

É piegas falar isso, mas de fato o que muda todos os outros itens acima, é analisar um empreendedor que realmente sinaliza que vai conseguir realizar o plano.

Com todo desafio e obstáculos pela frente, ter um empreendedor (a) determinado e obstinado à frente de uma fintech, é meio caminho andado para que um investidor acredite na ideia a ponto de investir. Quando o empreendedor do segmento olha um deal como o da Creditas (fintech que captou R$60 milhões recentemente) — ele comete o erro em não analisar o currículo dos empreendedores por trás. Assim é também com Guiabolso, Nubank e outros. No artigo anterior eu citei o Eldes Mattiuzz. O cara fundou o Bidu e a Youse. E lá atrás (2011), estava numa das primeiras iniciativas fintech — que a regulamentação matou: o Fairplace. Esse tipo de cara não pára. É esse tipo de empreendedor que o bom investidor está atrás.

Sei que para alguns vai faltar tópico para explicar os motivos. Mas vamos aos fatos.

Para onde foi o dinheiro?

Segundo a pesquisa do FintechLab, R$1 bilhão de investimento foi aportado em fintechs brasileiras. Se tirarmos os maiores acordos feitos com Nubank, Guiabolso e Creditas, o ano de 2016, foi um ano ruim, com um número bem pequeno de acordos.

Algumas poucas fintechs receberam dinheiro institucional, mas isso pode estar sendo maquiado pela falta de catálogo em plataformas como CrunchBase, Index e até a Dealbook (brazuca).

Cadê?

Óbvio que fintechs como Kickante, AcessoCard, Neon, Cloudwalk, Vérios e Pismo, por exemplo, não aparecem nas listas pois não divulgaram valores, mas captaram “bons reais” para financiar o crescimento. Então, acredito que o valor ultrapasse um pouco o valor de R$1 bi.

Não dá para colocar na lista também, acordos como o da Stone, que deve ultrapassar de R$500 milhões de funding, contando com a aquisição da Elavon no ano passado. É claro que o valuation da empresa já ultrapasse bem o montante dos bilhões.

É fato também, que os valores captados pelo Nubank, Creditas e Guiabolso, distorcem os números do montante investido em fintechs. No quadro abaixo (fonte CrunchBase), é fácil visualizar que são poucas as fintechs que ultrapassam o funding raising de U$1 milhão. O que é um sinal.

18 Fintechs com os maiores valores captados (e informados pelo CrunchBase).

Ps: Coloquei no final do texto, um presente para quem quer acessar todos acordos envolvendo fintechs brasileiras até agora.

Creditas, Nibo, Minuto Seguros, Magnetis, Bidu, Kitado, Conta Azul, Contabilizei, Nubank, GuiaBolso, Zup, IDwall, Vindi, eWally e algumas outras, são fintechs que aparecem com investimentos formais de fundos, aceleradoras e corporate venture, através dessa pesquisa que fiz via Techcrunch. Porém a maioria delas, não informa valor envolvido na transação.

Mas não se engane, pelo fato de alguns empreendedores do segmento ainda não criarem a cultura de não documentar os acordos, acho que os valores podem ser maiores do que os divulgados nesse tipo de plataforma.

Investidores anjos adoram fintechs

De fato, o investimento anjo é bem comum nessa nova geração de fintechs. Startups como a Easy Crédito por exemplo, captaram com bons anjos uma quantia considerável: R$983 mil — que diga-se de passagem é belo número para quem ainda não tem um VC. É o caso da Iugu, que também tem um belo case com anjos de porte, com track record financeiro bem importante.

Se juntarmos a maioria delas, têm sempre uma camada boa de anjos colocando dinheiro nessas startups. Mas de fato é bem pouco, perto de outros mercados com o mesmo número de nascimento de fintechs.

O melhor investimento anjo é o do empreendedor.

Siga à risca esse conceito na hora de absorver um anjo.

Tem bastante gente interessada em investir em fintech. Pode parecer besteira, mas não falta dinheiro. Há inclusive, um movimento dos fundos VCs brasileiros em descer o ticket para seed, para conseguir fazer alguns deals no país. Afinal, Série A virou mosca branca. As fintechs também foram impactadas por isso, já que passado o investimento anjo e validada a tese, uma lacuna entre o anjo e a Série A, atrapalha alguns acordos.

Há um movimento forte para matar maus investidores também. Estamos num outro estágio, onde o empreendedor está aprendendo que não pode aceitar alguns acordos e já está mais preparado para negociar termos que cabem num bom investimento anjo. Entre as fintechs, existe esse movimento bem legal e sedimentado que está se formando: empreendedores investindo em empreendedores.

A corrente do bem

A minha teoria é que empreendedor é apaixonado por empreendedor.

Isso é tanto verdade que existe uma corrente do bem se movimentando pelos bastidores do investimento anjo brasileiro. Gente que fez Buscapé, Movile, Printi, entre outros casos, já investem em startups e devolvem para o mercado o que aprenderam em anos de caminhada.

Alguns fundadores de fintechs são investidores de outras fintechs. Conheço uma boa quantidade deles. Veja o parágrafo a seguir.

Curioso isso, mas não é incomum. Por exemplo, o Piero Contezini (fundador do AsaaS), que admiro bastante, tem uma pequena participação no Guiabolso, que tem como fundadores investidores de fintechs também. Luciano Tavares, fundador da Magnetis é investidor anjo do AsaaS, ContaAzul e Creditas, que por sua vez tem o Sergio Furio, também investidor anjo da Magnetis, que também tem o Manoel Lemos — investidor importante do mercado, à frente da Redpoint e.ventures — e que foi um dos primeiros investidores do ContaAzul — que tem como um dos primeiros investidores, a 500 Startups da sócia Bedy Yang, que investiu nas fintechs BTCJam e IDwall — que tem pelo menos 3 investidores que são empreendedores fintechs e que recebeu um investimento recente da Canary.VC (que tem como fundadores, anjos que investiram na Meliuz)+ Monashees—que tem no portfólio Bidu, BizBank, Kitado e a própria Magnetis…

Essa corrente não se limita a isso, existe um movimento forte em empreendedores (na ativa) serem os primeiros anjos estratégicos de negócios ainda em validação. Na verdade, esse é um grande ativo para validar inclusive, as próximas rodadas dessas fintechs.

Torço para que a maioria dos empreendedores acorde para os chamados “investidores profissionais”. Alguns deles, se aproximam de startups oferecendo mentoria em troca de equity. Outros (os piores) oferecem troca de serviços por equity. E alguns outros (ainda piores) oferecem espaço/co-working para ganhar equity de startups.

Quem tá colocando dinheiro?

Tirando a Arpex Capital(Stone, Pagar.me, Mundipagg, Equals e Cappta), que conseguiu traçar o caminho sólido até a abertura do mercado de cartões no país, apenas:

Não tenho o motivo real, do porquê dos poucos acordos institucionais, mas acredito muito que vão se intensificar daqui para frente. Especialmente pela criação de associações para que elas discutam com os principais órgãos e também pelo amadurecimento do próprio mercado.

Bônus

Fiz uma pequena pesquisa e quero compartilhar com você. Elaborei uma lista de acordos institucionais (através da fonte do Crunchbase) e cheguei num relatório de cerca de 180 fintechs que já receberam investimentos nos últimos anos. Apesar de ser uma lista somente, dá para ter uma visão boa de como o dinheiro fluiu nos últimos anos. A maioria das startups não divulgou o valor.

— — — — — — — — — — — — Lista de Fintechs Brasileiras que receberam investimento. Fiz uma lista contendo todas fintechs que receberam investiment0. Vale ver.

Clique aqui para acessar.

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