você quer mesmo saber, mãe?

sexo com sexo
Jul 10, 2017 · 5 min read

preciso voltar a escrever sobre a minha vida. sobre as minhas experiências, sobre a sociedade, sobre o que me faz ser quem eu sou.

não tem sido fácil, eu sei. talvez seja por isso que logo agora, depois de quase 10 anos fora da blogosfera, eu tenha voltado a escrever.

mais uma vez, sem identidade. o anonimato me deixa mais confortável para escrever o que vier à cabeça. não preciso me preocupar com o uso futuro de cada linha que digito.

bem, nesses últimos dias eu fui cobrada pela minha mãe. segundo ela, eu nunca contei nada da minha vida pessoal. nunca falei de relacionamentos, de paixões, de flertes etc. ela estava bêbada, eu sei. mas ela cobrou e aquilo me incomodou. e me incomoda.

realmente falei muito pouco sobre isso desde a minha adolescência. mas não acho que cada detalhe deva ser compartilhado com a minha mãe. se fosse um relacionamento sério, certamente falaria. não teria outro jeito.

só que eu nunca estive num relacionamento sério. e nunca quis estar. sempre pensei: por que ter de dar satisfações de tudo o que faço? por que brigar por ciúmes? por que sempre sair com a mesma pessoa? por que ter de transar com a pessoa? e ser cobrada para isso? andar de mãos dadas? por quê?

nada disso nunca me interessou. então, quase sempre que me envolvi com alguém, foi algo entre quatro paredes e tchau. uma ou duas vezes e olhe lá. marcado por algum aplicativo, provavelmente.

você mata a curiosidade, se satisfaz momentaneamente e quer tocar a bola pra frente.

também, mãe, eu fico pensando: e se eu te dissesse que me sinto atraída por mulheres mais velhas? e que normalmente são, inclusive, mais velhas que você. você iria gostar de saber?

ou que a minha melhor noite de sexo foi com uma mulher transexual, você iria gostar de saber?

pois é, então vamos nos poupar de decepções. não, eu nunca vou namorar, casar e formar uma família com aquele mauricinho da escola. sempre odiei conviver com a elite carioca e seria contraditório virar a “tradicional família brasileira”.

também não me considero gay, algo que você sempre esperou que eu te dissesse. não, eu não sou gay. na noite de ontem para hoje, por exemplo, eu olhei que transava com um garoto na hora de tirar uma foto em grupo.

também vejo muito pornô hétero. ou de homem com homem. mas, né, quem é que vai me rotular?

se eu tivesse que escolher um rótulo, diria que sou pansexual. é um rótulo que tende a ser mais inclusivo com as várias identidades de gênero. os e as trans são uma importante bandeira para mim — algo mais também, é claro.

mãe, e a culpa dessa ideia de relacionamento que eu tenho (sufocante, monótono, briguento etc) é em parte por sua causa. na boa, onde já viu brigar e voltar a namorar tantas vezes o mesmo cara?

na segunda-feira, você dá a ele todos os adjetivos negativos etc. na terça-feira, ele está de volta como se nada tivesse acontece. na quarta, vocês brigam de volta; na quinta, estão juntos. e assim a semana segue. quem aguenta?

também sempre soube que relacionamento não era para mim porque a sociedade não me aceitaria. tudo bem se um homem de 50 anos namora uma jovem de 20. a história não é mais a mesma se uma mulher de 47 anos namora uma de 18.

é até bem complicado para a mulher mais velha aceitar a atração, aceitar o romance. e assim deu errado a minha primeira e grande paixão.

durante o ano todo, à noite, eu desejei apenas uma mulher. durante o ano todo, eu não beijei uma pessoa sequer. durante o ano todo, eu flertei apenas com uma única mulher. eu me arrisquei, eu esperei, eu fiz de tudo possível. mas ela não teve a coragem.

seja por risco profissional, seja por risco pessoal. ela caiu fora antes de tudo começar. e eu chorei por dias. nunca voltei a ser a mesma. voltei à vida amorosa mais racional e menos emotiva.

e, quando eu sabia que estava correndo risco de me apaixonar por outra mulher mais velha, eu me segurei. eu me segurei muito. eu já sabia de cor tudo o que aconteceria. ainda mais porque, desta vez, ela era casada e com filhos mais velhos do que eu.

fui racional desde o começo. não desejei à noite e tentei não procurar muito. me comportei como amiga. mas ela queria mais. dava para ver porque os convites para cinema e chop não partiam de mim.

eu certamente estava atraída. sempre fui atraída por ela. mas o meu medo por conta do episódio de 2010 era maior. e assim a nossa história foi se desenvolvendo aos poucos. de passo em passo.

um primeiro encontro, um segundo, um terceiro, um quarto. um esbarrão. um almoço. um coco. um cinema. um jantar. um esbarrão.

e assim a vida nos levou ao primeiro beijo, em 13 de fevereiro de 2015, no meio da rua. eu sentia muito tesão e já estava satisfeita de, nesta vez, ter conseguido um beijo. comemorei horrores e comecei a correr na academia.

afinal, agora eu tinha uma chance de transar com a pessoa que me deixava mais molhada. nos encontros seguintes, tivemos beijos roubados, mas nenhuma pegação firme. acho que ela tinha algum medo. eu também, na verdade.

a nossa noite juntas só foi mesmo de 11 para 12 de setembro de 2016. ela foi para Brasília por motivos profissionais. eu morava lá na época e tinha oferecido a minha casa. que só tem uma cama, por sinal. mas tinha um sofá-cama, duro igual a pedra, rs.

eu dormiria no sofá-cama, é claro, mas o clima não era para isso. saímos para jantar em 11 de setembro. na volta, ficamos conversando e se olhando demais. em muitos momentos, eu fico sem palavras. é muito tesão.

qualquer amigo meu fica surpreso — quando não indignado — por eu dizer que me sinto atraída por uma mulher de mais de 60 anos. na adolescência mesmo, eu admirava mais as mulheres de 40, 45 anos. ou até 30. naquela época, não me imaginaria na cama com uma mulher de 60.

só sei é que o tesão me levou a isso. a história também. e foi tudo muito bom. por já ter uma cabeça desconstruída, isso nunca me incomodou.

e, se eu já não imaginava dormir com uma mulher cis de 60 anos, muito menos poderia imaginar que sentiria tesão e teria a melhor noite da minha vida com uma mulher trans de 68.

eu não tinha nenhum laço afetivo. conheci no mesmo dia da transa. a informação inicial era de 48 anos, mas depois descobri que a idade, na verdade, era 68.

sempre tive o fetiche de transar com uma mulher trans não-operada.

pensava assim: antes de transar com homem, preciso transar com uma mulher trans não-operada. teria uma experiência única, pensava eu.

só que, na hora h, eu consegui arrumar apenas uma trans operada. a expectativa não era das maiores, mas eu embarquei porque, ainda assim, seria uma experiência com trans.

a noite foi maravilhosa. foi tão bom que saí direto da transa para buscar minha mala e seguir de táxi para o aeroporto. quase perdi meu voo, juro.

agora eu me pergunto: mãe, você quer saber disso?