Lar
Parte de mim ficou naquela casa. Ampla, de vidros grandes, com traços de reforma permanentes que parecem dizer que algumas coisas simplesmente nunca mudam. Fiquei nos filtros dos cigarros fumados sob a chuva leve, naquela polaroid que queimou, no baixo vermelho que mora aí há alguns anos e eu não levei pra casa de propósito.
Parte de mim é o vento frio constante, das ruas do centro que abrigam vida na madrugada à brisa que escapa pra dentro de um carro embaçado, trancado com a chave dentro. Vento que abraça e mistura com a fumaça quente que sai das bocas, de cigarros e risadas, tão familiar. Sobra vida no relevo da pele que arrepia.
Parte de mim deixei no toque da sua mão segurando a minha, sincero em cumplicidade e carinho como na primeira vez que se encontraram, no escuro de um teatro. Outra parte sujei de batom num copo de café que não queria que acabasse. Outra parte está bem distante, na carta que escrevi, e voa agora pro norte do mundo.
Parte de mim descansa no abraço apertado de quem sentou ao meu lado pra ouvir sobre a minha vida e só depois falar da sua. Tinha esquecido do quão fácil é conversar aí. “Eu tenho medo”, você me disse. Eu também tenho.
- -
The way we hold our hearts,
And the way we hold our heads.