Mais voz para as mulheres, por favor (ou, qual é o problema de campanhas como a HeForShe)

Conversei com muita gente essa semana sobre o lançamento da versão brasileira da campanha HeForShe (aquela apresentada pela Emma Watson no ano passado, lembra?), cujo objetivo é, em uma tradução livre, “iniciar um movimento de solidariedade pela igualdade de gênero, que chame homens e meninos para ajudar a acabar com as desigualdades que mulheres e meninas sofrem globalmente”. A versão brasileira da campanha foi lançada na semana passada e está sendo encabeçada pelo canal GNT. “Entendemos que o melhor jeito de atingir nossos objetivos é por meio dos homens, fazer com que eles também se sensibilizem e percebam que a igualdade é um direito de todos”, afirmou a diretora do canal, Daniela Mignani.

Quando me mostrei contrária à campanha, tanto a internacional quanto a recente versão brasileira, muitas pessoas estranharam bastante o meu posicionamento. Não sou contrária a falar sobre questões de gênero com homens, até porque, como dividimos o mundo com eles, é necessário que eles também se conscientizem quanto à isso, mas sou muito contrária a fazer isso da maneira que a campanha HeForShe propõe.

Discordo veementemente da afirmação da diretora da GNT, que diz que o melhor jeito de atingir os objetivos feministas é por meio dos homens. A frase já mostra a incoerência por si só. Uma campanha que se diz feminista, cujo objetivo é empoderar mulheres, discutir questões femininas, aumentar a representação feminina na mídia deveria, logicamente, focar seu protagonismo em… mulheres. As agentes principais da luta de mulheres devem ser as próprias mulheres. Não porque homens não possam ser solidários à causa das mulheres, mas porque ser agente da própria luta, da própria vida e dos próprios posicionamentos é o primeiro passo em prol da independência e empoderamento de si mesma.

Como uma mulher pode se libertar de uma visão de mundo patriarcal se, mesmo nas questões que dizem respeito a ela mesma, sua condição social, seu corpo e suas demandas, a figura de ação segue sendo um homem? Como uma mulher pode se libertar do conceito machista de que seu papel social é o de ser passiva, a donzela em perigo, se mesmo campanhas supostamente feministas a colocam nessa posição? “Fique calma, moça, os homens vão resolver a questão da desigualdade de gênero pra você”, é o que a campanha me parece dizer.

Uma pessoa ou organização que tenha como objetivo empoderar mulheres, como diz o canal GNT em seu site, deve pensar ações que as darão mais voz, mais protagonismo, mais espaço. Menos paternalismo, menos falsa simetria. Mais debates que promovam a idéia que mulheres podem ser amigas e aliadas, sem competição. Podem se ajudar, fazer umas pelas outras, se unir. Mais campanhas que mostrem que uma mulher pode falar por si mesma, sem depender do apoio de uma figura masculina.

A emancipação social da mulher precisa do reforço desses conceitos. Por mais que a conscientização dos homens para que alcancemos uma sociedade de equidade seja necessária, antes de mais nada é preciso dar às mulheres ferramentas para que reconheçam e lutem contra a situação de opressão na qual vivem. Para que essa luta possa acontecer, é preciso que mulheres aprendam a confiar umas nas outras, a desconstruir a idéia de que outras mulheres são inimigas, a se libertar da noção de que suas vidas, lutas e desejos só são válidos se forem validados também por um homem.

Elas por Elas.

(Eu foquei nessa questão do protagonismo nesse texto, mas existem N outros problemas que podem ser trazidos para a discussão da HeForShe, especialmente a falta de recortes. Recomendo a leitura desse link sobre o assunto, que traz um pouco mais dessa problemática: “Por que eu não estou nem aí para o discurso feminista da Emma Watson”.)

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