sobre você e quintas-feiras

Meu coração quase saiu pela boca quando li o seu nome no remetente do e-mail. O que diabos você tava me mandando nesse endereço que eu nem sabia que você tinha?

“Camis, bom dia! Você pode me fazer essa gentileza? Obrigado!”

Pela mensagem encaminhada, uma colega sua queria conversar com um cliente meu pra uma pauta e tava com problema pra agendar entrevista e blá blá blá. Que mulher estúpida no e-mail, aliás.

“Bom dia! Claro, repassei pro pessoal da assessoria, já devem resolver. Qualquer problema, me avisa. Beijo!” 
Não, beijo não. Como que ele se despediu? Um “Obrigado” e a assinatura, vai assim também. Ah, é um e-mail de trabalho, Camila, supera.

Mas é difícil superar e confesso que abri o whatsapp e desarquivei a sua conversa, só pra ter certeza que ela realmente acabou do jeito merda que eu lembrava que acabou, depois do último dia merda que a gente se falou, há mais de um mês. Acabou. Foda-se.

Se ler seu nome num e-mail me deixou ansiosa, ouvir sua voz no fim da tarde terminou de me matar. O que diabos você tava fazendo ali, agora? Isso não pode ser real. Mas lá está você, com uma pilha de revistas na mão, sorrindo pra mim como se não fosse nada. “Chefe me pediu pra deixar umas pro pessoal daqui. Acho que você vai curtir, olha só”, você diz casualmente enquanto senta na cadeira ao lado pra me mostrar a nova edição da revista que você trabalha, como se a gente tivesse marcado um horário, como se você estivesse sempre ali — mas é a sua maneira de entrar em qualquer ambiente e torná-lo seu. O café, o salão daquela primeira festa, o meu quarto, agora a sala do coworking. Aquela coisa que todo mundo tenta fazer, basicamente, mas dá pra contar nos dedos quem realmente consegue. Você é todo música mesmo.

Em algum momento, suas mãos param de folhear as páginas foscas pra brincar com a miniatura de gato da minha mesa e você sorri daquele jeito que me deixa com borboletas no estômago. “E aí, o que achou?”. É claro que eu gostei. Das pautas, da diagramação, da matéria que mais me chamou a atenção e, é claro, tava assinada com o seu nome. “A foto é minha também”. E também tá linda. Pra variar, eu sempre te fazendo mil elogios, ao mesmo tempo que é tão difícil arrancar um seu, o único cara que eu ainda faço algum esforço pra impressionar.

Chove lá fora e você me oferece uma carona pra casa. Foda-se que você mora do lado de onde a gente tá e o desvio não faz o menor sentido. E foda-se que ninguém conversa no caminho se quando a gente chega tem uma única vaga no estacionamento do meu prédio, e você me olha do jeito que costumava olhar antes de acariciar o meu rosto como se eu fosse a garota que você amava. Um beijo seu, calmo e despretencioso, e eu apago os últimos meses da memória pra me prender por algumas horas naquela amostra grátis de tudo que a gente poderia ser, antes de você ter que ir embora por uma pressa qualquer e eu voltar a me referir a nós como “sei lá que merda é essa”. Vai que dessa vez é diferente?