
Resolvi escrever esse texto porque a questão da qual eu vou falar me exige muito esforço toda vez que eu tento explicar os porquês do meu argumento. Como é uma bola que eu levanto sempre, tenho sempre que explicar tudo mais de uma vez pra pelo menos não passar uma impressão errada pras pessoas. Não que eu ache que isso vá sumir depois desse texto.
O tal assunto é: Por que pode não ser legal pessoas brancas usarem turbante?
Agosto está, hoje, no dia 14, e já tive pelo menos 4 pessoas me questionando o porque eu acho que brancos não podem usar turbante. Mas você vê o quanto essa frase soa mal?
Então pra começarmos esse assunto, é preciso que você saiba que não é sobre você poder ou não poder fazer algo. É sobre como você fazer ou deixar de fazer aquilo afeta a si mesmo e aos outros, e sobre como pode ou não ser falta de consideração com um grupo. Isso é, se você se preocupa em ter consideração.
Tenho certeza de que ainda está confuso, então eu tirei um print do comentário que me motivou a escrever isso pra gente poder destrinchar a questão. Eu escondi o nome e a imagem da pessoa que me enviou pra preservá-la.

Esse foi um comentário bem cordial e eu estou respondendo diretamente pra H, como vou chamá-la.
Existe um teste simples que eu inventei pras pessoas fazerem antes de perguntarem ao outro “por que não posso usar turbante?”. As três perguntas são:
1- “eu quero passar a mesma mensagem desse grupo utilizando essas coisas?”
É hora de se perguntar sobre como as pessoas ao seu redor vão interpretar o seu turbante, e se você utilizando turbante passa a mesma mensagem que o grupo do qual ele “veio” (onde ele foi mais disseminado).
Já ouvi, mais de 10 vezes, que o turbante que eu uso é pra esconder meu cabelo ruim. De parentes, de pessoas desconhecidas, no trabalho. Semana passada mesmo aconteceu duas vezes: uma, numa festa de familia, o comentário foi “hoje em dia ela não tem muito trabalho com o cabelo porque ela coloca esses panos na cabeça pra esconder”. O outro comentário, em outro ambiente, foi “Acho que pentear o cabelo dá menos trabalho que usar esses turbantes, né rsrsrs”. Com o tempo a gente caleja, mas no começo não é fácil. Dá vontade de ser grosseiro, mas as pessoas não entenderiam a grosseria porque o fato do meu cabelo ser “ruim” é um senso comum. Cabelo de preto não presta.

E aí eu pergunto se você, enquanto branca, enfrentaria os mesmos comentários que eu por estar usando turbante.
Eu te digo que o máximo que lhe aconteceria são dois tipos de comentário. O primeiro diria que você está bonita e ressaltaria o fato de estar na moda, e ter aparecido na Fátima Bernardes. O segundo comentário diria que você está feia, pois está parecendo uma “macumbeira”, referindo-se ao candomblé, religião de matriz africana abertamente discriminada. O segundo comentário inclusive seria ouvido por qualquer um que experimentasse usar turbante antes dessa moda chegar.
2- eu enfrento esses problemas, de forma que as pessoas que o enfrentam, ao olharem pra mim, se sintam representadas?
Quando a gente fala de representação, muita coisa precisa ser esclarecida. Quando a gente fala de representação é um formigamento no peito que bate quando vejo uma irmã de tranças na rua, uma irmã de black, um nego de dreads. Isso é difícil de explicar. Representação é o que boa parte das crianças negras não têm, é o que não as ajuda a amar a si mesmas por só enxergarem em todos os meios de comunicação a imagem de pessoas brancas e loiras totalmente diferente delas. É almejar ser o que não é e ter a confirmação de que não deveria ser quando a mãe alisa seu cabelo antes que se aprenda a amá-lo.

Se você, branca, colocar um turbante na cabeça, vai ajudar crianças como a K a terem exemplos de pessoas fortes e bonitas parecidas com ela por perto?
Pouco tempo depois, uma menina negra em outro lugar que trabalho disse que queria ter o cabelo pra cima, como o meu. E que achava ele lindo. Revelei a ela que o cabelo dela era como o meu, mas que ela não sabia porque a mãe relaxava o seu cabelo.
A possibilidade de fazer do cabelo uma coroa a libertou um pouquinho. Usar o turbante ou o black é levar um pouco de liberdade. É difícil entender isso sem vivenciar. E eu entendo, H, o porque me questionou tantas coisas no seu comentário hoje. Leva tempo até a gente entender.
3- eu PRECISO desse tipo de representação? Preciso me identificar com isso? Como isso melhora a forma como eu me sinto?
Você se sente representada utilizando um turbante? O que ele agrega pra você, que não seja estético? Como ele ajuda a sua auto estima e fortalece a sua consciência negra?
Eu sei que parecem muitas questões pra um acessório. Mas aqui a gente chegou no melhor ponto disso tudo: o turbante não é um acessório da mesma forma que — numa comparação meio esdrúxula — uma imagem de santo antônio não é um objeto de decoração. Uma pessoa testemunha de jeová pode achar lindas todas as imagens de santo do catolicismo enquanto objeto de decoração, mas certamente não vai enfeitar a sua casa com eles porque qualquer pessoa que entrasse na sua residência iria achar que ele é católico, e não testemunha de jeová. Vou além: o testemunha de jeová não colocaria as imagens em sua casa porque ENTENDE o significado delas pra religião que elas representam, e sabe que esse significado em nada condiz com a sua religião.
Com isso estou dizendo que o turbante ou o movimento negro são religiões?! De maneira nenhuma. Esse foi um comparativo chulo pra que você entenda que 1- o turbante não é um acessório de beleza somente. Ele não é só estética. Ele é um símbolo de luta e resistência para as negras do Brasil pelo racismo que enfrentam todos os dias. É uma reverência à nossa ancestralidade e uma forma de exaltar nosso orgulho. O turbante é uma coroa herdada.
Pra finalizar, H, não precisa ficar ofendida nem quando eu nem quando ninguém falar algo do gênero na sua timeline ou perto de você. E, se depois do que eu falei, você ainda quiser conversar sobre o assunto ou quiser continuar a usar turbante, eu vou conversar com você, porque a gente precisa se deixar entender. É cansativo, mas um dia, quem sabe…
Por que, quando seu amigo foi humilhado na escola você não disse nada? Por que você não se mostrou indignado quando fizeram aquele comentário racista sobre os haitianos no trabalho? Por que você não rebateu seu familiar quando, num almoço de família, disse que “agora tudo é racismo” e que não podemos dar ouvidos a esse mi mi mi?
Não fez nada porque ser preto está na moda, desde que você não seja preto.
[…] Quer desconstruir? Acha o sistema racista odioso? Venha para o nosso lado, mas venha inteiro, não pela metade.
- Rodrigo Teles Medrado em“Está na moda ser preto, desde que você não seja preto”