Tomei a decisão de escrever isso depois que um post no facebook chegou à mim. Era sobre uma menina cujo cabelo é crespo e bem volumoso. A mãe dela recebeu um bilhete da professora na agenda da filha dizendo que o cabelo da menina era motivo de piadas entre os colegas e por esta razão aconselharia um relaxamento. Na hora me identifiquei, e minha mãe nem precisou de bilhete na agenda pra fazer o que o mundo aconselha às negras desde sempre: que neguem a si mesmas.
Seja por meio da repulsa dos adultos que resulta na chacota inocente das crianças ou não, lhe pergunto: você estaria pronto para “acabar” com o sofrimento da sua filha rendendo-se ao racismo do seu meio escolar ou disposto a fortalecer a opinião dela sobre si mesmo e fazê-la se orgulhar de quem é, ainda que adversa à tudo que a permeia?
A mãe da menina crespa escolheu não se render. Junto dela, várias outras mães, professoras e alunas postaram fotos dos seus cabelos volumosos, crespos e cacheados em apoio com a hashtag #RelaxaNãoMãe. Bonito, não é mesmo?
Mas não é a realidade de boa parte das crianças e mães da maioria das escolas por aí.
Não deixe se enganar pela moda de ser preto. Quando a moda acabar e o turbante for embora, só o que é resta a autoestima e orgulho de carregar nosso próprio cabelo como coroa na cabeça, e isso amiga é tão difícil de se construir quanto o racismo de ser desconstruído.
Desde que comecei a trabalhar com educação escuto das crianças comentários e curiosidades a respeito do meu cabelo. Algumas curiosidades dóem, mas é preciso amar os pequeninos, quebrar ainda na infância a aversão que eles têm a estetica negra. Não é culpa deles. Não é culpa daquele seu amigo que diz que ele não gosta e isso é só a opinião dele também, não. A gente tem que ajudar ele a entender como essa opinião está impregnada por uma cultura racista. Não é tão fácil quanto parece. Só postar também não ajuda.
A gente sente que o que faz não é o bastante. Tem menina demais submetida à química ainda cedinho (3, 4 anos!), mulheres demais deixando o cabelo cair pra começar a entender que ela não precisa se ofender tanto. O mundo já faz isso por ela. Ela pode se amar. Deve se amar.
A gente não acha isso importante porque parece pequeno frente às ofensas diretas de MACACO nos jogos de futebol. Mas a ofensa da qual eu to falando, esse racismo cômodo, vai crescendo, vai consumindo quem você é, destruindo sua autoconcepção e tirando a sua identidade. Experiência própria. A gente tem que gritar mais alto que no facebook. A criança tem que entrar na minha sala de aula, olhar pra professora que está no comando e se incomodar. Ela não é branca. Ela tem o cabelo diferente. E ela é professora, modelo do meu aprendizado e ensino.
A professora, que aconselhou o relaxamento, tem que se incomodar até reposicionar seus valores. Até conseguir ensinar aos seus alunos praticantes do bullying que a Menina Crespa não vai mudar por causa de ninguém, que ela é linda como é e, efetivamente, entender e fazê-los entender porque isso é errado.
Vou além na minha pequena utopia.
A professora se incomoda, se transforma e numa tentativa mais efetiva de transformação dos seus alunos reúne os pais da turma para falar sobre o assunto. Convida a mãe da Menina Crespa para falar sobre racismo e sobre como isso está impregnado nas crianças que estudam com sua filha. Incomoda a todos.
Queiramos incomodar agora, longe da timeline, perto de nós mesmos, onde eu nunca vi nenhuma mãe responder da maneira que a mãe da Menina Crespa respondeu. Sempre vi ficarem com a primeira opção.
p.s: hoje fiquei sabendo do projeto Afrobetizar, procurei no google como participar pra trazê-lo pras escolas próximas a mim mas não encontrei. Se alguém tiver contato com alguém que participe, me passa? ;)