Ela escolheu a solitude

Ela abrigava em si mesma uma alma grande demais para caber em uma pessoa só. Ela era puro transbordamento. Às vezes, se expunha demais e deixava que vissem sua alma sangrar. Deixava que vissem seu sofrimento em suas entranhas expostas, mas esse era o jeito dela, só dela, de mostrar ao mundo o quanto ela era forte.

Porque ele era por demais cruel com ela. Mas quanto mais forte o mundo lhe batia, mais fortemente ela resistia. Ela endurecia sem perder a ternura. Porque ela era uma sobrevivente. Muitos a criticavam, muitos falavam dela em tom jocoso, muitos a recriminavam, muitos não a entendiam. E poucos a acolhiam. Muito poucos.

Por isso, ela seguia um caminho só seu, por vezes imersa na mais sofrida e profunda solidão, outras vezes, imersa na mais deliciosa solitude. Mas sempre só, sempre em sua própria companhia, em sua própria jornada de heroína. Era assim o seu life style, o seu modo de viver. Será que eu sou uma misantropa? Ela chegava a se perguntar. Convivia tanto consigo mesma, durante tanto tempo, que se esquecia de como é conviver com os outros. Vivia mais tempo dentro de si mesma do que fora, no mundo real.

O chamado da solidão e da reclusão lhe era mais tentador do que o chamado do mundo exterior. Porque ela era só dela e de mais ninguém. Não se dividia com o mundo. Não se misturava com os outros. Arrogante? Talvez. Mas, na verdade, ela era assim porque nunca lhe apresentaram um outro modo de vida.

Aprendeu a se virar sozinha desde muito cedo. Ela era uma mulher selvagem, dessas que correm com os lobos. E cresceu sendo protegida pelos felinos. Teve uma socialização muito precária quando criança. E, na adolescência, isso só piorou. Não tinha irmãos. E, por desavenças familiares das quais ela não tinha culpa nenhuma, lhe fora também negada a convivência com os primos.

Então, como resultado, ela cresceu desse jeito todo errado, todo torto, sem saber como se colocar no mundo, sem saber se relacionar com os outros, sem perseguir a maioria dos sonhos que os outros perseguem: amor, casamento, família, filhos.

Não é culpa dela ter nascido filha única, ter crescido num lar desestruturado e se tornado uma adulta ensimesmada. Não, mundo, não é culpa dela. Perdoem-na por sua extrema introversão e introspecção. Perdoem-na por ela não ser como vocês. Ela simplesmente não aprendeu, ela simplesmente não sabe ser de outro jeito.

Aceitem-na com seu jeito único de ser, só dela. E vocês, ao aceitá-la como ela é, passarão a amá-la. É só o que ela pede. É só o que ela quer. Essa mulher com cara de moça no fundo é só uma menina que queria ser amada e nunca foi. Sua família nunca a amou. Os homens nunca a amaram. Mas ela pede ao mundo que a ame. Vocês podem fazer isso por ela?

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