Eu, bruxa

Shaonny Takaiama
Aug 27, 2017 · 8 min read

Este meu caminho é solitário. Fui eu que escolhi assim, acho que antes mesmo de eu nascer eu já havia decidido que seria uma pessoa introspectiva e solitária. Eu poderia ser como todo mundo é: ser mais arroz de festa, ter aquele tal savoir faire, mas, desde pequena, eu sempre fui uma eremita. As plantas da horta da minha avó me entendiam mais do que os seres humanos. Os gatos me adoravam, a ponto de dormirem comigo no berço. Meus eternos e amados protetores. E sempre foi assim. Fui crescendo e aprendi a também ser amiga dos elementais, dos ventos, das ondinas, das árvores, do sol, da lua e das estrelas. Entendi que sou uma bruxa. E toda bruxa precisa da solidão para acolher o conhecimento em si mesma. O conhecimento nasce no útero da bruxa.

Adquirir o conhecimento do Oculto é um percurso solitário. As bruxas percebem o que está invisível aos olhos comuns. Elas vêem o não visto porque conseguem tirar o Véu de Maya. E elas têm esta habilidade porque treinaram muito pra isso. Ficaram imersas na natureza, em contato íntimo com Gaya, com o Cosmos, respirando no mesmo compasso da natureza. Assim, elas começaram a ver os mundos inexistentes. Ou melhor, os mundos invisíveis. E perceberam que não estão sozinhas. Perceberam que há uma infinidade de criaturas nestes mundos interiores. Descobriram que fadas, gnomos, faunos, elfos, sereias e tritões realmente existem. Encontraram-se com unicórnios enquanto bebiam água à beira de cachoeiras, durante noites de luar. Eles são dóceis e mansos com quem tem boa energia. Com quem não deseja domesticá-los, nem mutilá-los — porque dizem que o chifre de um unicórnio vale uma fortuna.

Eu sou uma bruxa. Eu sempre soube que eu sou uma bruxa. Sou uma bruxa moderna, que pinta o cabelo de vermelho para lembrar da minha ancestralidade celta. Sou uma bruxa que convive no mundo urbano, mas que faz seus rituais secretos dentro de casa ou em pensamento, enquanto anda na rua, para atrair proteção, sorte, prosperidade ou o que eu desejar ou precisar no momento. Eu danço nua para a lua, de madrugada, com as luzes da minha área de serviço apagadas, para não ser vista pelos vizinhos. É complicado ser uma bruxa nos dias atuais. Já fui queimada viva muitas vezes, em encarnações passadas, e continuo sentindo muito medo desse tipo específico de morte. Porque como diz Rita Lee, a Rainha das Bruxas, “só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão”.

Hoje, se eu disser que eu sou uma bruxa, serei queimada viva novamente. Serei linchada nas redes sociais, serei mal interpretada, serei julgada pela intolerância crescente. Mas quer saber: eu não tenho medo dos intolerantes. Toda intolerância está ligada a uma profunda ignorância. Jesus foi morto por pessoas ignorantes. E o mesmo aconteceu com as bruxas do passado. Enquanto houver ignorância no mundo, haverá bruxas sendo queimadas pelas fogueiras da ignorância e da intolerância.

No fundo, toda bruxa é uma mulher livre, selvagem. Ninguém domina uma bruxa de verdade. As bruxas não são como Eva, que aceitava ficar debaixo de Adão durante o sexo. As bruxas são filhas de Lilith, a primeira mulher de Adão, que foi expulsa do paraíso apenas por não se submeter ao marido e querer ficar por cima durante o ato sexual. Lilith foi expulsa do paraíso por querer controlar o próprio prazer. Lilith é o símbolo da liberdade e da rebeldia feminina. Talvez ela tenha sido a primeira vítima do patriarcado. Desde tempos imemoriais, o patriarcado silencia, estupra, agride, mutila e mata uma mulher que não seja submissa, como Eva o foi. Por isso a história de Lilith, a outra mulher de Adão, não é muito conhecida. O patriarcado tratou de fazer com que ela fosse esquecida e demonizada. Sim, muitos acreditam que Lilith é um demônio. O patriarcado continua silenciando as bruxas modernas, que são muitas, mas eu penso que nós não devemos mais nos esconder. Porque não estamos fazendo nada de errado.

A minha bruxaria não envolve sacrifício de animais ou qualquer tipo de ato do mal. Eu não faço magia negra, não faço amarrações, não faço nada que interfira no livre arbítrio de outra pessoa. Aliás, eu só faço rituais para mim mesma. Eu, como muitas bruxas modernas, cultivo o Sagrado Feminino. Eu realizo rituais que têm trazido coisas positivas para a minha vida. Desde que assumi o meu lado bruxa, eu me tornei uma mulher muito mais realizada em vários aspectos e acredito que isso se deve ao meu contato com o Sagrado Feminino. Minha autoestima aumentou consideravelmente, pois tenho conhecimento total do meu corpo e sei me dar prazer como nenhum homem me daria. Ser bruxa me tornou mais calma diante das situações difíceis, pois a minha fé e o meu pensamento positivo atraem prosperidade para a minha vida. Ser bruxa melhorou o meu relacionamento com as pessoas, pois com a minha sensibilidade, eu consigo ser mais empática e enxergar as dificuldades e desafios do outro. Tudo isso eu adquiri em anos de estudo, em anos de imersão profunda dentro de mim mesma.

Já frequentei diversas religiões, já passei por muitas escolas iniciáticas (tanto nesta quanto em outras vidas), e vivo a espiritualidade no meu dia a dia. Hoje, o que eu busco apenas é o que o Rei Salomão também buscava: Sabedoria. Eu não almejo ser a mulher mais bela ou mais rica do mundo, almejo apenas ter mais Sabedoria. Sabedoria para governar a minha vida. Sabedoria para saber tomar as decisões certas no momentos certos. Sabedoria para saber a hora de falar e a hora de calar. Sabedoria para ser firme quando tenho de ser e para ser dócil e mansa quando preciso ser. Tudo isso eu peço a Deus e à Deusa. Que eles me dêem Sabedoria. Porque, junto com ela, vem tudo o mais que uma pessoa precisa na vida. Salomão, além de ter sido o homem mais sábio do mundo, foi também um rei riquíssimo e teve todas as mulheres que desejava. Inclusive a Rainha de Sabá, outra grande bruxa.

Tudo o que eu peço ao Universo, ele me dá. Eu sei colapsar a minha função de onda. Por isso, eu sei que serei uma mulher muito Sábia. Mas confesso que às vezes fico em dúvida e me pergunto: serei Sábia e solitária ou terei ao meu lado um homem tão sábio quanto foi Salomão?

Não me entendam mal. Eu não me importo de ser solitária. Não me importo mesmo. Eu e a solidão nos entendemos bem há anos. Sim, eu sou amiga da solidão. É ela quem me dá forças. Não tenho medo algum da solidão. Foi nos momentos mais solitários da minha vida em que eu me encontrei internamente. Foi durante a solidão em que eu tive grandes insights. Eu preciso dos momentos de solidão para criar a minha arte. Foi nos momentos de solidão profunda em que eu cresci como mulher. Mas, em determinados momentos, confesso que eu sinto falta de compartilhar meus segredos e as coisas Ocultas que eu descubro com outro Bruxo como eu. Mas tem que ser outro Bruxo, um feiticeiro e eremita igual a mim.

Não consigo me relacionar com os homens normais, porque eles são materialistas demais. E o que eu quero é a leveza, eu quero a Insustentável Leveza do Ser. Quando dois corpos estão fundidos e mesmo com o peso adicionado dos dois, eles são leves. Porque se tornaram um só. Porque a alma de um entendeu a alma do outro. E a alma é leve, não tem peso algum.

Cena do filme A Insustentável Leveza do Ser

Não quero sexo por sexo. Eu quero intimidade. E a maioria dos homens, além de só se importar com o próprio prazer, faz sexo por sexo e, logo depois do clímax, vestem as calças e vão embora. Acho isso de um egoísmo extremo. Eles agem assim porque evitam a intimidade com uma mulher. Eles têm medo de ser envolver e ficarem presos a elas. Não quero um homem assim, indeciso e cheio de medo. Eu quero um homem sábio, seguro de si e, principalmente, que tenha conhecimento do Oculto como eu tenho. Posso estar pedindo muito ao Universo, mas eu quero um homem igual a Salomão (só que monogâmico… rs)

Quero um Homem assim para compartilharmos Conhecimento, para descobrirmos coisas juntos, para criarmos o nosso próprio laboratório de Alquimia. Será que este Homem existe? Não quero esperá-lo, pois, como diz a Ana Carolina, “não vou viver como alguém que só espera um novo amor. Há outras coisas no caminho onde eu vou. Às vezes ando só trocando passos com a solidão. Momentos que são meus e que não abro mão. Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Escuto no silêncio que há em mim e basta: outro tempo começou pra mim agora!”. Mas se este Homem existir e tiver de vir, então que venha. Porque estou pronta. Se ele não vier, ainda sempre terei a mim mesma. E eu sou o maior dos meus tesouros. Por isso, mesmo que eu não tenha um Salomão ao meu lado, eu sempre serei Plena.

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    Shaonny Takaiama

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    Sou jornalista e escritora. Amo a madrugada, cachoeiras, canto lírico, gatos e doce de leite.

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