Sophia II, a lagartixa

Eu a vejo e ela me vê. Nossa convivência já dura algumas semanas. Enquanto dormito na rede, na varanda recém-conquistada — sonho antigo e prosaico que não pude realizar em São Paulo -, ela aparece devagar, assim que o sol se põe no horizonte.

Desconfiada, passos bem pensados, ora rápidos, ora lentos, ela sai para se alimentar, no mesmo horário em que eu me deito na rede para ler e aproveitar a brisa fresca da noite. Nossa convivência é pacífica, mas sei que ela tem medo de mim.

Se eu me mexo bruscamente, ela sai correndo e volta a se esconder em uma fresta do telhado, o lugar que escolheu para morar. Ela não deveria me temer porque eu adoro a sua espécie, mas entendo este medo que ela sente de mim, afinal, eu sou um animal muito maior do que ela. Para ela, eu sou um possível predador, mesmo que eu nunca tenha sentido vontade de devorar uma lagartixa!

Desde criança, eu sempre amei lagartixas. Acho-as lindas, com sua pele albina, transparente e fria, aqueles olhões arregalados e a cauda longa. Admiro o seu poder de regeneração, quando perdem o rabo e continuam vivas. Gosto principalmente do fato de se alimentarem de moscas e outros insetos indesejáveis.

Hoje mesmo, enquanto escrevo este texto, na rede, com o laptop no colo, presenciei uma cena interessante. Minha vizinha lagartixa, a quem darei o nome de Sophia II, se esgueirava na parede, lenta, em direção a uma mosca que estava pousada distraída.

Quando ela estava a ponto de abocanhar a tal mosca, inesperadamente surgiu uma segunda lagartixa (que não terá nome aqui por ter agido de má fé com sua colega), menor, da mesma fresta do telhado onde mora a minha vizinha Sophia II. Esta nova lagartixa que apareceu veio correndo, em direção à mosca que seria o jantar de Sophia II, e, num átimo de segundo, passou por cima da mosca.

A cena foi tão rápida e digna de um documentário da National Geographic que eu, a princípio, achei que a segunda lagartixa havia comido a mosca que seria o jantar da primeira, Sophia II, no caso. Só depois, quando ela correu para outro lado, percebi que a mosca continuava lá parada, no mesmo lugar.

E Sophia II, com esse impulso de sua colega, correu ligeira para outro lado da parede, espantada e de barriga vazia, coitada. Resultado: a mosca não foi comida por nenhuma das duas lagartixas. 
Sophia II percebeu isso e ainda tentou voltar e papar a mosca, mas já era tarde demais. O inseto voou e não se deixou ser devorado assim tão facilmente.

E eu presenciei uma cena fascinante do fascinante mundo das lagartixas. Qual seria a intenção por trás da atitude desta segunda lagartixa? Se ela correu em direção à mosca, por que não a comeu? Por que essa lagartixa não deixou sua colega, amiga ou irmã se alimentar da mosca em questão?

Estes pensamentos não me saem da cabeça. Haveria competição no reino das lagartixas? Disputa de territórios e presas?
Em outra ocasião, andando na rua com um amigo, ele e eu avistamos uma outra lagartixa, na calçada. Ela tinha umas listras cinzas na pele, não era albina como a maioria das que eu encontro por aí.

Eu e meu amigo tivemos o mesmo impulso, de tentar pegá-la, e a lagartixa, minúscula, não gostou nem um pouco disso e se atirou em direção ao meu amigo, tal qual um soldado se atira para a guerra. Aquela era uma lagartixa brava, pronta para a luta. Com muito custo eu a peguei, e ela me mordeu, com aquela boca sem dentes, ou com dentes tão pequeninos que nenhuma dor sua mordida é capaz de causar.

Percebi o quanto estava com raiva e quão valente era aquele réptil minúsculo. Foi insólito e até engraçado ser mordida por uma lagartixa. Respeitei seu estado de espírito e seu livre-arbítrio e a coloquei no mesmo lugar onde estava antes, pois eu a peguei apenas porque queria admirá-la mais de perto.

Outra vez, na casa de uma amiga, enquanto eu a ajudava com sua mudança, encontramos uma lagartixa enorme atrás do fogão. Enquanto minha amiga gritou de medo ao ver aqueles olhos arregalados olhando para ela, eu fiquei extremamente empolgada com a descoberta e decidi caçar a lagartixa.

Com muito custo, depois de me esgueirar sob a pia da cozinha, eu consegui pegá-la e segurá-la entre meus dedos. Deixei-a livre para ela ir embora, se assim o desejasse, mas ela preferiu ficar comigo, com aquelas patinhas finas apoiadas sobre meus dedos. Aquele foi meu momento de glória! Eu finalmente havia conquistado a confiança e a amizade de uma lagartixa! Nosso contato foi tão intenso e mágico que eu até dei um nome para ela: Sophia.

Minha admiração pelas lagartixas só tem crescido desde então. Em tempo: eu também adoro calangos e os vejo aos montes no meu quintal. Para mim, são lindos minidinossauros e meu sonho é conseguir capturar um, mas não sei se eles mordem ou são venenosos. Só espero que eles não se alimentem das minhas amadas lagartixas.

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