Desculpe o meu transtorno, preciso falar de ansiedade e depressão

Mamãe achava que eu era melancólica. Minha vó me chamava de ingrata. Meu marido acha que eu vou me matar um dia. Meu psiquiatra diz que tenho transtorno de ansiedade generalizada com sintomas depressivos.

Relendo meus textos publicados para trazer visibilidade ao setembro amarelo, fiquei com vontade de falar mais, de falar sobre coisas que eu nunca falei publicamente.

Escrevo sobre meus sentimentos desde que fui alfabetizada. Foi a forma como minha mente conseguiu se manter sã. Quando eu escrevo, sinto que a angústia sai do meu corpo. É como se eu fosse sufocar se não conseguisse transformar emoção em palavras. É um ritual catártico todas as vezes.

Desde pequena eu escrevo textos intensos, textos tristes, textos de despedida. Mamãe não entendia, achava que era melancolia. Minha vó achava que não fazia sentido eu ter tudo na vida e parecer estar sempre triste. Comecei a desejar que algo muito trágico acontecesse comigo, porque só assim eu daria valor às coisas que eu tinha. Lembro de um texto que eu escrevi aos 8 ou 9 anos, dizendo que eu era amada, que eu tinha amigos, que eu estava sempre cercada de pessoas, mas que nada disso importava porque eu me sentia profundamente sozinha e profundamente infeliz. Eu era uma criança.

Quando meus pais saíam, eu passava a madrugada inteira ajoelhada no encosto do sofá, agarrada nas grades da janela da sala esperando eles voltarem, e ficava em pânico cada vez que uma ambulância passava pela rua. Eu sempre achava que eram eles ali.

Lembro de sentar na janela da cozinha, no décimo terceiro andar, e ficar olhando pro chão lá embaixo. Eu podia ter caído, mas não ligava.

Ficava pensando se alguém sentiria minha falta. Quem sentiria minha falta? As pessoas entenderiam? Pensava na carta de despedida que escreveria.

O tempo passou e me acostumei com a ideia de ser melancólica, ingrata e achar que as pessoas morreriam a qualquer momento. Me acostumei a sonhar com tragédias, como aviões caindo em volta de mim. Me acostumei a expressar meus sentimentos só para o papel, porque ninguém mais além de mim conseguia entender o que eu sentia.

O tempo continuou passando e minha mãe faleceu. Eu piorei muito. Meu medo de avião me impediu de entrar em muitos deles e me fez desejar sair de muitos outros em pleno voo. Quatro meses depois me peguei tendo inveja de um ator de tinha morrido de overdose. Pedi ajuda.

A vontade de dormir e não acordar foi passando aos poucos, e outras coisas preencheram o vazio que eu sentia. Outras coisas que me levaram à exaustão total. Eu tinha um medo profundo de ficar sozinha com os meus pensamentos, achava que se começasse a me sentir no fundo do poço outra vez a chance de não sair era grande. Então “parei” de sentir qualquer coisa. Ocupava dias e noites pra não ficar sozinha com os meus pensamentos. Eles eram muito cruéis comigo e eu não sabia como gerenciar.

E então meu marido ficou gravemente doente, foi quando parei de sentir de verdade. Antes eu só evitava mas agora era oficial. Senti que minha vida tinha acabado ali. Perdi a esperança, a vontade de viver, a graça nas coisas. Eu me sentia um imenso nada vagando. Pra mim tanto fazia se era sol ou chuva, se ficaria em casa ou sairia. Eu simplesmente não ligava mais, pra nada. Fiquei apática, sem reação. Me sentia vazia, morta. Não fazia mais diferença estar aqui ou não. Se eu vivesse tinha que dar conta só de aguentar o dia, se eu morresse tudo bem também, que diferença faria? Olhava as meninas de 12 anos e achava que aquilo era felicidade. Eu nunca mais seria feliz de novo, nunca mais sentiria prazer nas pequenas coisas, nunca mais nada. Do que adiantaria reconstruir minha vida mais uma vez se a qualquer momento tudo desmoronaria de novo?

Nessa fase, já adulta, ainda achava que eu mesma estava causando isso. Ainda me sentia uma ingrata. Era minha culpa me sentir daquele jeito e também era porque eu não reagia que aquilo não passava. Quando eu ousava falar como estava me sentindo, as pessoas tinham um exemplo na ponta da língua de alguém que “tinha motivos de verdade” pra estar mal. Isso só piorava tudo. Me sentia uma puta ingrata, afinal tinham pessoas com problemas sérios e eu ali, com tudo na mão, sofrendo. Me sentia profunda e completamente sozinha.

Eu estava amarga, estava seca por dentro. Tinha inveja da alegria dos outros, tinha inveja de quando me sentia feliz. Eu não me reconhecia mais. Só queria me ter de volta.

Foi quando me ofereceram ajuda mais uma vez e me encaminharam pra um psiquiatra. Afinal a culpa não era minha e aquilo tudo podia sim ter uma solução. Que alívio eu senti. Me senti uma pessoa que fez muito mal a outra sem saber que estava causando uma mágoa e precisava muito pedir desculpa por tudo. Queria fazer as pazes comigo e me perdoar por todos esses anos de julgamento injusto.

Aos poucos entendi que a vida poderia ser diferente, que ela poderia ser plena e feliz de novo. Consegui desacelerar e me entender com os meus pensamentos. Consegui ficar triste e depois ficar bem.

Não vou mentir, a sombra da depressão me ronda. Vez em quando ela tem vontade de voltar, mas hoje eu sei que é mais forte do que eu, sei que não tenho controle sobre ela, sei quando pedir ajuda. E eu peço.

Hoje não culpo mais as pessoas ao meu redor pela falta de habilidade em lidar comigo quando não estou bem, as pessoas não falam sobre depressão ou ansiedade nas escolas ou nas reuniões sociais. Não é fácil ver alguém que você ama sofrendo e não saber como ajudar. Só queria que elas entendessem que felicidade nem sempre é uma escolha, que reagir nem sempre é uma escolha, que estar deprimida definitivamente não foi uma escolha. Não dá pra simplesmente virar a chave e ser feliz. Não dá. É um processo longo e supervisionado.

O mais importante que eu aprendi com tudo isso, é que há diferentes níveis da doença. Porque transtorno de ansiedade e depressão são doenças, não frescura, e qualquer um pode ter, tendo dinheiro ou não. Minha visão sobre a depressão era a de uma pessoa que não sai da cama, não se arruma, chora o dia todo. Mas ela pode chegar de mansinho e quanto mais cedo a pessoa receber ajuda, menor o risco de chegar em um ponto tão grave.

Meu marido acha que eu vou me matar porque escrevo textos tristes. Mal sabe ele que são esses textos que me mantêm viva até hoje. São eles que me permitem ler a minha alma e lidar com a intensidade de tudo que eu sinto.

Escrever me salva todos os dias e eu espero que possa salvar também outras pessoas que sofrem sem entender o que está acontecendo.

Hoje sou uma pessoa feliz e realizada. Vivo um dia de cada vez, sempre torcendo para que cada um deles acabe bem. É difícil sair de uma depressão ou lidar com a ansiedade constante, mas é possível. É possível. E depois desse texto imenso, só quero que cada um de vocês saiba que é possível, mesmo que muitas vezes pareça fortemente que não.