A última semana durou um mês inteiro
No segundo semestre do ano passado eu tive oportunidade de participar de uma imersão que tinha o auto-conhecimento como objetivo. Em algum momento, quando eu estava sendo apontado como uma pessoa que toma decisões com base nas sensações/impressões e não em alternativas inteligentes como o pensamento lógico, me questionaram: “Tu podes dar tua definição de tempo para mim?”.
Fácil. Tempo pra mim é percepção. Acordo cedo de manhã, com sono, e penso que tenho poucas horas para dormir. Lembro que em toda a minha vida eu devo ter passado uns sete anos dormindo. Acho tempo demais, porque quero aproveitar mais a vida, e desejo dormir menos.
Mas eu deveria ter ido mais além. Tempo é de quem sabe o que fazer com ele. O tempo não é nada se ele só passa. Aliás, se ele só passa, o que se tem é pressa.
A pressa, por outro lado, é inimiga da atenção. A imperfeição não é um problema, mas a desatenção é um crime. A desatenção é o que impede que os fins durante a vida sejam entendidos como partes integrantes de uma história muito maior que é escrita desde sempre por cada um.
Por desatenção ao dia-a-dia, o fim do final de semana, ou das férias, parece muito injusto, porque “passa rápido demais”. E passa mesmo?
Ser atento, de verdade, é um exercício. É chegar em casa depois de um dia cansativo e ouvir alguém que tem algo a falar exige muito da gente. É passar o dia inteiro trabalhando no verão e relaxar num banho gelado. É mais fácil dormir, ou reclamar e desejar o inverno. Mas a conversa vai fazer falta, e o verão também. Eventualmente, tudo que faz parte da nossa rotina e fica de lado bate a nossa porta como se viesse prestar conta. E a conta é cara, reajustada pelos juros e inflação da pressa.
Mas (des)atenção é muito filha da puta. É muito fácil estar e não estar em um lugar ao mesmo tempo. É ligar para alguém para dar boa noite e não conseguir desconectar das outras mensagens que estão sendo trocadas ao mesmo tempo. É sentar para tomar café no fim do dia pensando no que fazer à noite. É assistir a uma palestra e responder emails ao mesmo tempo.
Fechar os olhos e ouvir quem fala. Tomar café e perguntar sobre o dia. Assistir a uma palestra e se questionar sobre as certezas pré-concebidas. O desafio é enorme, embora não pareça.
A última semana durou um mês inteiro. O exercício de ser atento se estendeu até a saudade. Agora, nem ela tem pressa. Mas ainda bem, porque agora o tempo é meu. E ele parece muito tempo.