Empreendedorismo de palco x Empreendedorismo pé no chão

Devido a diversos ocorridos (como o caso Zebeléo) que surgiram recentemente muitos têm discutido algo que há um certo tempo tem me incomodado severamente:empreendedorismo de palco.

O empreendedorismo de palco é uma modalidade de palestras que difundem a ideia do empreendedorismo com aspectos fortemente motivacionais, baseados em clichês como “siga seus sonhos”e “cada queda é um aprendizado“, cheio de palavras em inglês, feito por pessoas que nunca empreenderam em nada e que pregam um empreendedorismo “fácil”, com um mantra de “empreender é só acreditar nos seus sonhos“, mascarando as dores reais de empreender. Por trás de cada frase dessa há uma verdade sobre empreender que não foi contada.

Esse modelo atrai muitas pessoas que ainda não tiveram uma profunda experiência empreendedora, pois as encanta com um “mundo mágico de sonhos”. Muitas fórmulas, livros, cursos e “caminhos infalíveis” são vendidos à todo custo, prometendo resolver imediatamente as dores desses indivíduos, mas a grande maioria que consome esses produtos — que, por acaso, é ocultada pela exaltação dos 1% que se dão bem — não encontra essa tal solução infalível e quebra, achando ainda que foi porque não leu o suficiente, não assistiu a palestras o suficiente… Esse ciclo faz com que muitos despreparados entrem no mundo empreendedor e participem das estatísticas de falência, faz com que a qualidade do cenário empreendedor caia e o pior: causa uma frustração imensa naqueles que quebram a cara ao seguir a fala dos empreendedores de palco. Eu reconheço a importância do fator motivacional no início da jornada empreendedora, mas não é nem um pouco saudável que ela seja uma grande ilusão vendida como real e pintada mascarando a verdadeira realidade.

Os empreendedores de palco motivam e enchem de esperanças as pessoas para algo que não é tão simples como dito, e ao quebrar a cara a queda se torna maior para os que acreditam no que eles dizem. Esses próprios empreendedores reforçam a lenda do “Super CEO”, imbatível e sempre de bem com a vida, mas vivem vidas — por trás das câmeras — iguais a de todo mundo em aspectos importantes: pressão, ansiedade, frustrações, medo…. é o tal dofake till you make it. É preciso que os empreendedores compreendam que a realidade dura não participa só da jornada deles. Isso é ocultado nos discursos de empreendedores de palco e gera um desconforto (sendo bem gentil com as palavras) gigante na hora da vida real.

Eu não nego que no começo da minha carreira empreendedora — sim, com um negócio, diferentemente dos empreendedores de palco — e de palestrante, tive referência e tendências do empreendedorismo de palco. Comecei a trilhar esse estilo, mas logo comecei a me incomodar, porque fui criada (educação doméstica + experiências duras da via) orientada a resultados e não os via nesse modelo. Isso foi me inquietando a ponto de questionar essas “fórmulas secretas” e esses “X passos para…” que prometem sucesso a todos, sem exceção, e a observar o quão rasos e [absurdamente] questionáveis são os conteúdos dessas pessoas. Decidi então adotar um movimento oposto ao do empreendedorismo de palco chamado empreendedorismo pé no chão.

Empreendedorismo de palco tem algumas funções básicas: atrair novos empreendedores (sem muita noção da real face do empreendedorismo, mas ok), motivar esses mesmos novatos, transformar empreendedorismo em uma grande conversa de autoajuda (não que eu diga que autoajuda seja ruim, mas cada qual tem seu espaço) eformar novos empreendedores de palco. O resultado é basicamente esse:

“Mas Aline, tu tais dizendo que empreender de fato em um negócio não tem um potencial de autoajuda e não pode ter grande teor emocional é?” Não, não estou afirmando isso. O empreendedorismo é uma potente forma de empoderamento socioeconômico e de autoajuda, e deve ter um fator emocional envolvido, principalmente paixão pelo que desempenha — mesmo que te dê muitas dores de cabeça e noites sem dormir -, mas temos que saber medir isso tudo e colocar cada coisa em seu lugar. A autoajuda não pode ser o conteúdo principal quando se fala em empreender, mas sim desenvolvimento econômico e o processo de gestão e criação de negócios. Semelhantemente, o teor emocional não pode ser o [exageradamente forte] motivo que guie alguém a empreender.

Então, se você pensa em empreender ou empreende, filtre melhor os conteúdos que você consome e as referências que você elenca: isso realmente faz a diferença na sua jornada. Seja um empreendedor pé no chão: tenha ciência da realidade empreendedora como de fato ela é, e se você ainda sim ver sentido e paixão nisso, prossiga. Ter seu próprio negócio é muito bacana, mas exige entrega e muita… muita…. muita resiliência e muito pé no chão.