Belchior, uma vacina quente!

Quando eu era criança, Belchior apareceu no nosso fusquinha, ponto. Cresci e Belchior intenso, incrível, poeta, incógnita e um orgulho, me ajudou muito a viver: melhor e pior. Também à minha mãe. Nós precisamos estar perto da inteligência (cantar bem alto e repetir aquela música).

Em 2015 comecei a aprender a conhecer mais Fortaleza, o Ceará e a cultura daquele lugar através de um convite — que muito honro — de William Pereira Monte (No barraco da Constância tem) e Felipe Damasceno (Damas), artistas que pesquisavam corpo e cultura digital, por meio deste incrível projeto acolhido pelo Laboratório de Dança (Porto Iracema/Dragão do Mar).

Como reverberação do sonho desses dois jovens artistas importantes, em 2016, era a musa Gloria Diógenes (indefinível força feminina amante do que emerge e urge) que convidava Massimo Canevacci e eu pra trocarmos mais - na UFC, no Dragão do Mar e no espaço de arte “Sem Titulo”, de Elizabeth Guarabira.

Dessa vez, Belchior apareceu no braço de Alexandre, um DJ — que é também filho de Gloria, em forma de tatuagem. Belchior era posters nas paredes, stencil nos muros, discografia fundamental nos carros, adesivos por aí na cidade e sua frase “mas deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colaaaaaaaaaaado” era gritada com orgulho no final de cada festa emocionada e emocionante.

Foi quando Belchior voltou inteirinho pra mim!

No hotel, passei a semana estudando a sua intensidade. Lembrava: a música no Brasil cumpre a literatura e a filosofia… Ali urbana, poética, vital, ácida… O que é ser “apenas” um (rapaz, mulher, criança, negro, coxa, ativista, esquerdopata, mblista, arrivista e todas as impossíveis #s) latinoamericano hoje? O que é pensar em “apenas” através do conceito “cultura do advérbio” que inventei pra estudar situação colonial (ainda, já..); O que é querer traduzir a “Divina Comédia” de Dante do português ao “português acessível” — mesmo quando reclama da herança colonial de falar português, de querer esquecer francês e de falar cearês? Como a liberdade fundamental da complexidade de Dante chega à profundeza da aridez? O que significa ter dívidas e recusar uma proposta gordinha da General Motors hoje? O que está ali hoje que não é mais fluxo do mundo dos anos 70? O que significa não ser feliz mas não ser mudo? Fritava eu, na cama do hotel, namorando com aquele homem sumido.

“Vejo vir vindo no vento…”

No ultima noite ali, na orla gentrificada da Praia de Iracema, no meio de patins das criancinhas bem doidas, das paqueras da praia “dos crush”, das que não sabemos mais se são ainda prostitutas, contei pro Felipe Damasceno, rápido e baixinho, que estava ouvindo Belchior. Era um risco: eu tava mexendo num patrimônio. Ele me autorizou.

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Sobre vento:

Um desaparecido incomum, Belchior volta ontem pra avisar que morreu. Um dia depois da maior greve geral da história do país, que informa o mundo sobre a baixeza desse novo-que-nunca-chega. Tem a ver, juro.

Belchior escolheu andar e sumir, de olhos abertos. Sumiu de olhos abertos na voz de Elis Regina. Sumiu de olhos abertos a cada conta que não pagou podendo ter escolhido pagá-las. Será? Não sei. Não sei se importa. A “pressa de viver” e o “encanto com uma nova invenção” é o antídoto-Belchior no corpo de todo mundo que o tomou. Qualquer tentativa de falar o que tem nesse sangue, ESCONDIDO E PULSANTE, é insuficiente. Ele dá febre, mal-estar e anticorpos. Belchior, é vacina quente.

obrigada Belchior!

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