Santuários Urbanos

Eu gosto de ficar sozinho às vezes.

Quando eu não trabalhava em casa e não tinha uma filha, muitas vezes eu aproveitava a hora do almoço para sumir e ficar um pouco sozinho no almoço. “Nunca almoce sozinho”, dizem os conselheiros de carreiras. Mas no meu caso é algo pela minha sanidade mental. Eu preciso ficar sozinho às vezes, para contemplar um pouco a vida.

Nestes momentos, então, eu tinha alguns lugares em Belo Horizonte onde eu gostava de ficar sozinho. E parecem ter uma maldição. Nunca duram muito. Fecham depois de 4 ou 5 anos. Talvez seja o que acontece com grande parte dos bares e restaurantes em geral. Muitos abrem, poucos sobrevivem.

O primeiro deles era o Café do Sol, quando o proprietário preparava um filé absolutamente sensacional no prato do dia. Chegava, sentava, pedia, comia, e rezava para não coincidir de encontrar com colegas de trabalho.

O segundo deles era a Focaccia Fiorentina. Um caso curioso de um restaurante que servia uma comida absolutamente especial, filial de outra casa em NY.

O terceiro deles era o Europeu. Este eu não ia no almoço. Dica de uma ex-chefe minha, era um restaurante com parquinho do lado. Tinha um WIFI que nunca funcionava, mas a combinação restaurante e parquinho permitia que minha filha ficasse no parquinho enquanto eu trabalhava na praça de alimentação que vivia vazia. Uma praça de alimentação vazia, no entanto, prevê o destino comercial do restaurante.

Semana passada, quis fugir um pouco da rotina e fui no Big Owl de Nova Lima. Um bar no meio da estrada com uma bela vista para as montanhas, de um proprietário americano. Passei pela porta e estava fechada também.

Todos os estabelecimentos acima não existem mais onde estavam. Todos tiveram ascenção e queda relativamente rápidas. Quando eu penso em restaurantes, penso naquelas placas escrito “desde XXXX” onde XXXX é um ano que denuncia pelo menos uns 10 anos de idade. Não foi o caso destes lugares.

O que unia estes lugares era não serem lotados de gente, terem alguma coisa especial, alguma conveniência, e servirem de santuário para mim.

Teve também um santuário quando eu fiquei pouco mais de um mês em Washington DC. Era uma barbearia antiga, onde músicos se reuniam aos sábados para tomar uma cerveja, conversar, relaxar, e eventualmente tocar músicas aleatórias. Era o Archie Edwards Barbershop. Temo que tenha fechado também.

Amanhã, irei numa barbearia. De um velho amigo, cuja vida lhe sorriu, merecidamente, e que resolveu realizar um velho sonho e compartilhar o sonho com os amigos. Sua barbearia, que inaugura depois de amanhã, será pré-inaugurada amanhã, pois é aniversário deste meu amigo, que nas horas vagas, é músico.

Será a oportunidade dele de criar seu próprio espaço para tocar. A barbearia vai ter instrumentos e amplificadores disponíveis e jams, creio, a cada 15 dias. O relacionamento da casa com a vizinhança provavelmente irá ditar o ritmo.

Quanto tempo vai durar o espaço, ninguém sabe. Torço para que dure muito e que eu possa ser assíduo. É perto de casa. E é como deveriam ser todos os estabelecimentos. A cara do dono.

Cafe Racer Club. Av. Arthur Guimarães 18, esquina com Bernardo Vasconcelos. Belo Horizonte. Aguardando os sites ainda :-)

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