Raonu
Raonu
Aug 25, 2017 · 2 min read

âncora

I

eles iam jogando todos
todos os meus defeitos na mesa
e puxavam meu rosto contra eles
pura e violentamente
em um ato premeditado de extrema
exaustão eu ia morrendo
segurar as lágrimas era como
segurar um carro em alta velocidade
e evitar que matasse algumas pessoas era assim
que eu me sentia
como se estivesse prestes a matar
alguém.

os olhos deles eram cheios
cheios de decepção e amor
um tipo estranho de amor eu poderia dizer
um tipo que machuca com palavras
mas era amor
eu sabia
tinha certeza
amor
gentileza
pureza
a dor vinha apenas em segundo plano
ou talvez ela fosse o cerne de tudo desde sempre
e apenas eu não tinha percebido
os olhares de pena
os amores de pena
como se fosse a única coisa que me seria digna

e realmente o era.

II

tive vontade de enfiar a mão em minha garganta
procurar meu coração para arrancá-lo fora
ele deveria estar negro de tanto pecado
tanto pecado
pecado
pecado
pecado
eles gritavam maldições em meu ouvido
palavras que as vozes na minha cabeça já gritavam
meu deus parem por favor eu suplicava
já basta as batidas do meu coração
tão altas que acho que vou morrer
e a dor
a dor singular
como se tivessem fincado uma âncora
em meu coração.

oceano vermelho
de águas revoltas
a âncora acorrentada ao meu pé
esquerdo me puxava
mais e mais
mais e mais
pra baixo

eu tentei me salvar
me debati com um louco
usei toda a minha energia
mas eu estava só e doente
em um oceano vermelho

então eu me entreguei aos braços fustigantes
das ondas violentas
ainda ouvia as vozes
ainda sentia a dor
ainda sentia a morte

queria a morte
queria-a tanto
queria
o último suspiro
o fim de tudo
mas nunca veio
pois ainda não era
ainda não era o fim
mas apenas o
começo.

III

eles foram embora como um rapaz
que acaba de bater em uma mulher
como se fosse nada demais
como se eu merecesse todo aquele
furacão

mas os olhos mentem
os olhos mentem
eles mentem

e eu deveria ter sabido.

[naquele dia
eu não dormi
e pensei em me matar
mais de um milhão
de vezes]

desde janeiro
daquele ano
estou, ainda, no oceano vermelho

sozinho.

de vez em quando
as águas se violentam
entretanto
todos os dias
dentro de mim
uma chuva cai

ela lava minhas vísceras
e, às vezes, consegue amansar
a mais pura
e violenta
dor

eu vejo o arco-íris

)
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