Árvore de inverno
Parece que aqui dentro é apenas nevoeiro. Vez ou outra, uma avalanche. Mas sempre o inverno, o frio dolorido que enregela os dedos. Uma estação solitária que parece durar mais do que o normal, vários dias isolado em um casebre, com medo das nevascas, com medo de viver lá fora. As portas trancadas, as janelas também.
Quem poderia me tirar daqui?
Eu posso. Mas como? As chaves já não funcionam mais. Eu as enfio nas fechaduras e elas se quebram como se fossem feitas de vidro. Preciso de ajuda. Mas de quem? Não tenho ninguém. Todos estão nos seus chalés, aproveitando um delicioso chocolate quente e esquentando os pés na lareira, com a família, sorrindo, tendo sonhos.
Sonhos.
Nunca mais dormi bem, portanto nunca mais os tive. Os demônios espreitam pelas frestas da claraboia e de lá descem, furtivos, desejando meu corpo em uma agonizante podridão, meu sangue tornando-se lama, meus ossos tornando-se instrumentos de guerra.
Preciso ver o lado bom. Mas não há. Estou cansado de lutar. Eles são muitos e eu tenho medo que estejam escondidos embaixo da cama. Estou sozinho, não há quem me ajude, não me reconheço mais no espelho.
Dentro de mim, a alma corajosa de outrora feneceu.
Foi junto com as folhas de outono, no primeiro dia de inverno, e me deixou assim, como uma árvore sequiosa e gelada. Há tantas por aí, mas estão sozinhas da mesma maneira. O que será que se passa dentro delas?
Será que ainda há calor lá dentro?
A primavera um dia pode vir e me pintar com suas cores, suas flores e seu calor singelo que brota como poesia no coração, e então o brilho vai voltar para os meus olhos, e eu voltarei a contemplar o mundo como uma criança faceira. Vou gostar de viver e vou sentir coisas, muitas coisas, sentimentos de todos os tipos, a tristeza não vai me botar pra baixo e eu voltarei a sonhar. E serei cercado de pessoas gentis, pessoas essas que me livrarão de meu cárcere, da minha casa fajuta, e se construirão meu lar.
Morarei dentro de mim mesmo quando a primavera chegar.
E não precisarei de chaves.
Nunca mais.
E por isso espero.
Com a paciência incólume de uma árvore de inverno.
