Na mira da espingarda de algum escravocrata

Esses dias escutava o cypher psicopretas (após ter descoberto o projeto Rima Dela, que me encaminhou até esse outro cypher), nunca gostei realmente de rap, via sempre como um movimento masculino, tão masculino que a presença feminina era para mera objetificação e nada fora disso, mas a cerca de umas semanas atrás passei a dar maior atenção ao rap quando um amigo me recomendou o álbum mixtape comunista rico do Diomedes Chinaski, o qual me impressionou pela originalidade não só na composição em si, mas pelo próprio clipe da faixa principal do álbum (comunista rico), onde há mistura de um vaporwave com referências realmente históricas e um choque com a realidade em conjunto quando se sai daquele cenário vaporwave histórico, uma identidade de um país que pode ser melhor que um sadboys 2001, não precisa de movimentos que preguem uma contrainteligência ou frases tão ofensivas quanto “Shitting quick, fitting dick, like transmitting shit with an AIDS stick”. Somos melhores que isso e não é um sentimento nacionalista, é um sentimento onde a necessidade de acesso e informação é gritante, nem todos tem, seja por mídias ou poesia, um estilo chamativo, a crítica paira e precisa ser passada.Transmitir um olhar diferente não é luxo, é necessidade.
Mas, a questão principal não é o fato de como o rap no Brasil cresceu, ou até a gourmetização de ser periférica como afirma Dory de Oliveira em um dos seus versos no cypher de psicopretas:
“Tá chovendo Sinhá fazendo rap
Nem sabe o que diz (é foda!)
Vim da legião das preta raiz
Não aquelas que só é quando condiz”
A questão vem da raiz, raiz de um movimento contracultural que por muito tempo banalizou tantas mulheres por uma questão social estrutural e até mesmo racial, vários abordam a temática do “MC branco”, abafando as vozes que ecoam de mulheres MC’s negras, transexuais, travestis, gordas, pobres. O problema já não é mais só racial e nunca foi só racial.
Um exemplo é Rosa Luz que em sua música Afrotrapfunk diz:
“PRETA,PUTA,POBRE E TRANS
No holocausto me esqueceram”
Dois versos até então simples, porém que mostram uma realidade muito mais complexa, onde a marginalização chega ao ínfimo, um local que ninguém quer olhar, assim se dá a segunda afirmação de ser esquecida no holocausto.
Holocausto abrange além do sentido histórico, segundo o dicionário (o qual não me recordo) o sentido primário é de um sacrifício praticado pelos hebreus onde a vítima era queimada inteiramente e por extensão pode ser considerado um sacrifício sem fins históricos/didáticos. Em qualquer um dos sentidos, posso dizer que Rosa Luz acertou na palavra, pois a realidade de uma mulher preta,puta, pobre e trans (como a mesma afirma) é ser esquecida em um holocausto, é ser dada como sacrifício por uma realidade que não escolheu viver.
Assim chego ao título do texto:
“Na mira da espingarda de algum escravocrata”
Que também veio do cypher de psicopretas, verso da — maravilhosa, e ainda bem que a descobri — Bia Doxum, apesar desse ser um dos versos mais fortes do cypher, na minha opinião, é claro, ainda não foi aquele que mais me marcou, uma vez que quero passar a mensagem de que ainda além do racismo, além do abafar de vozes, há a solidão que uma mulher negra pode sentir, e sente, como ainda afirma Bia Doxum:
“Mas não tem dia que me falte o pé no chão
Pra me fazer solitude nessa solidão”
Versos esses de resistência, resistência de ter um corpo objetificado e estereotipado, resistência de provar-se mulher e negra, tão mulher quanto outra, tão humana quanto outros, seria injusto — com todas as mulheres negras — continuar este texto, sou mulher, fato, porém não estou no meu local de fala, não sou negra, não sei realmente o que é a solidão da mulher negra, o que é ser uma mulher negra, assim encerro com um dado estatístico, que nos diz nessa nossa finitude que Marielles e Marias Quitérias morrem do nosso lado todos os dias:
Cerca de 64% das mulheres assassinadas no Brasil são negras.
Sim, elas estão na mira da espingarda de um escravocrata.
Acho que não preciso dizer mais nada. Power to the people
