roteiro de documentário pós mercúrio retrógado

Enquanto fico ligando os pontos nas suas pintas, paro o tempo por um segundo e me pergunto: em que momento nossos universos colidiram? Mentalizo a visão dos nossos corpos nessa luz escura que vem da janela e tento descobrir que constelação seria correspondente a nós dois quando nossos pontos se entrelaçassem.

Nesses segundos em que o tempo para, percebo que revezamos nossa função para com o outro: por ora sou sua casa, às vezes você é meu abrigo. Um escape da realidade onde as horas já não têm apenas sessenta segundos e os dias não são lembretes constantes de que estamos atrasados para qualquer coisa. O tempo para não porque decidimos que parasse, ele só volta a seguir da maneira certa, onde cada milésimo não é mais nem menos, é apenas uma partícula pulsante de um agora.

Dou play na nossa luta constante de mágoas e distâncias e coloco tudo em câmera lenta. Manipulando a velocidade de nossa eterna guerra, enxergo em frames uma dança onde nos entrelaçamos, cada palavra errada se torna uma sobreposição de gestos lentos e sinuosos, e, por meio segundo, vejo o rastro da violência transmutar-se em algo belo. Seria essa a equação válida, onde a essência de nosso drama se origina da paz benevolente de estar junto?

Antes de adentrar a última camada desse lençol, na profundidade desse oceano metafórico, me afogo em seus afagos. Vejo de longe a miragem onírica de duas enguias, ou talvez duas águas-vivas, ambas da mesma espécie, se entrelaçando de um jeito que não se diferencia tentáculo ou cauda ou dente ou corpo transparente, os dois seres fluidos se unem em uma dança de líquido e sólido, ar, água e matéria. Ambas letais e venenosas, mas incapazes de afligir dano àquilo que as corresponde, um espelho de si mesmas que não desperta instinto, mas vontade. É uma dança coreografada na química, na ordem e nas ineficácias, onde o enlace só gera uma beleza, inútil, mas bonita pelo fato simples de ser.

Somos nós dois, ali, nesse oceano raso demais para o que queremos, e logo me transporto para um deserto de areia fria, onde preciso te dizer algo, mas quando o faço, sinto a aspereza das palavras que não fazem sentido algum. Seria necessário aprender todas as línguas e criar uma nova entre todos seus significados e particularidades, onde aí sim te diria qualquer coisa sem esperar entendimento, mas com o alívio de que usei todos os vocábulos possíveis para que o fizesse.

E assim, acordo, com seu espasmo na madrugada. Estamos naquele instante em que já não sabemos a causa do despertar, mas ali estamos, nos afastando do gosto áspero da língua e da sensação sufocante de um afogamento. Já não lembro se voltamos a dormir, e no decorrer do dia você já está distante, e o tempo volta no seu método industrial de produção. Dando pause na realidade, eu tento imaginar que tipo de máquina eu seria. E logo concluo que se tivesse de me tornar um organismo mecânico, que fosse algum onde pudesse engrenar com suas peças, mas, ao mesmo tempo, que também pudesse funcionar com as minhas próprias.

Seria tão mais fácil de entender se todo nosso viver-juntos fosse uma coreografia, uma peça, um filme. Nossa trilha sonora seria sutil e aleatória, entre nossos discos e experimentos falhos no piano e no violão, mas ainda assim surtiria uma beleza afável e aconchegante da extensão de dois espectros, nos nossos exercícios diários de sobrevivência cálida entre o caos gelado. Nosso roteiro teria liberdade poética em misturar astronomia e biologia de uma forma filosófica, onde nos compararíamos a dois galhos no mesmo jarro, brotando raízes na mesma água compartilhada, sincronizando teorias astrológicas com nossos feitos cotidianos, e o que mais o dadaísmo neutro da nossa cabeça compartilhada permitisse.

Eu não te julgo por não enxergar as coisas da forma que eu vejo. Seu universo particular deve ser tão interessante quanto o meu. Para você, talvez haja sempre uma explicação mais coerente, para você as montanhas azuis que vemos de longe talvez sejam só montanhas. Não me interessa muito saber sobre a refração da luz ou a névoa que se dissipa ao nos aproximarmos dela, só me importo em te mostrar a beleza das coisas. O tempo todo eu só quero te dizer o nome de todos os tons de azul. O tempo todo eu só quero te mostrar a beleza. Porque são meus atos que refratem nos seus olhos, são meus dizeres que se dissipam nos meus gestos. Essa realidade constante da mundanidade é nosso fardo diário, mas cabe a nós dois, seres fluidos e transeuntes, editar a película aos nossos filtros e quereres.

Eu julgo a vida, a anatomia e suas limitações. Anseio em criar essa fórmula que desafia a própria física, onde dois corpos podem sim ocupar o mesmo espaço. Anseio em um dia engrenar-me em seus líquidos ópticos a fim de que você enxergue a si mesmo da forma que te vejo, para que finalmente entenda o que digo quando digo o que digo de você.

Por hora, me limito à minha língua pobre que tenta te transmitir mensagens até no subconsciente, me limito ao meu corpo gasoso tentando me liquefazer dentre sua névoa sólida, me desmorono e me edifico e permaneço e me desfaço e me aproprio do que os outros com mais valia dizem para te dizer que _

manual de sobrevivência para heróis falidos, 2018