Águas turvas

Quão fundo você consegue ver?

Eu sempre tento observar as coisas de longe antes de tecer qualquer opinião. Eu acho melhor assim. Em todas as vezes que eu resolvi me deixar levar pelo calor do momento, eu acabei de uma forma ou outra me decepcionando com a minha própria opinião depois de um tempo. Então toda vez que eu recebo qualquer informação que me causa algum choque, desconforto, ódio, empolgação, eu dou um passo pra trás antes de sair disparando o que eu penso.

Esse tem sido o modus operandi dos últimos anos e eu tenho aprendido bastante coisa com isso.

Eu venho lendo de uns tempos pra cá desde Darcy Ribeiro até Olavo de Carvalho e com isso uma coisa fica mais clara ainda pra mim:
É muito difícil de lembrar tudo que aconteceu na minha vida até hoje. A minha memória falha bastante às vezes. E aí que lendo esses caras, eu penso no tanto de coisa que já aconteceu nesse país desde que ele existe. São milhões e milhões de histórias de pessoas diferentes acontecendo simultaneamente.

São muitos fatos, são muitas mudanças, são muitos pensamentos. Eu fico perdido no meio de tanta coisa que eu penso. Duvido das minhas próprias intenções às vezes. Me corrijo. Às vezes discuto com alguém e assim que eu disparo um argumento, já percebo que eu falei algo inconsistente ali e que eu preciso repensar.

Tendo tudo isso em vista, na complexidade de tudo que aconteceu, na falta de transparência do meu eu comigo mesmo, eu me pergunto: Se eu tenho dúvida dos meus próprios pensamentos, como eu vou ter certeza dos pensamentos dos outros, das suas intenções e daquilo que move as suas ações?

Não me levem a mal, mas o que todos nós vivemos no país é uma grande cegueira. Não pela incapacidade própria de ver, mas pelos obstáculos que se estabelecem.

Se existe a psicanálise, por exemplo, que serve pra tentar descobrir o que vai além da superfície do próprio eu, imagine a complexidade de conseguir decifrar as intenções alheias, ainda mais quando já existe um histórico de desonestidade.

E não é só de um lado, é de qualquer lado. Dá pra apoiar cegamente qualquer movimento que seja? Dá pra bater no peito e gritar vitória, sem ter A MENOR ideia do que vem em seguida?

É sério. Nós precisamos refletir mais. Pra mim (e Sócrates e Platão hão de concordar comigo), o maior erro é ter certeza de que se sabe de algo. E é um erro grosseiro. É até um erro tático. Nós perderíamos uma guerra e morreríamos pensando assim.

Não confie em você mesmo, não confie em qualquer pessoa, não confie em alguém desonesto, não confie em alguém desonesto que te rouba todos os dias e por aí vai.

Mas respeite todas as pessoas. Todas as pessoas tem histórias diferentes da sua e você não sabe o que é viver na pele de ninguém. Você pode achar que tem condições de julgar alguém, mas você não tem, em hipótese alguma que você imagine ser razoável.

Se você tem ódio ou despreza alguém pela orientação política, sexual, religiosa ou seja lá mais o que, que houver de diferença entre você e ela, se você acha que alguém deve ser torturado, que alguém deve ter menos direitos que você ou que alguém é mais estúpido que você, você não quer o bem da sociedade, você não quer o bem do país, você não quer o bem de nada.

Então fica aqui um pedido:

Se a sua intenção é ajudar esse mundo em que a gente vive e fazer alguma (boa) diferença pros seus filhos, netos, bisnetos e toda a humanidade, pense mais a respeito antes de sair cuspindo fogo e disparando aquilo que você acha que é verdade. Conversar, ouvir e repensar são caminhos bem mais construtivos do que debochar e agredir.

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