www.instagram.com/si_lima

asdfg e minhas botas de chuva

Eu me lembro como se fosse hoje: eu sentadinha na ponta do sofá marrom de courvin, na sala de casa. Ali eu dedilhava em cima do braço do sofá como se estivesse tocando piano — ao menos, na minha cabeça, era essa a intenção.

Meu pai passava e ficava me olhando. Um mês depois ele me colocou no curso de datilografia.

Mal interpretada, eu fui mal interpretada!!!!

Fui?

Sério, no meu coração adolescente eu j-u-r-a-v-a que eu queria tocar piano, mas o meu pai nunca me perguntou isso! Ele certamente entendeu que eu queria datilografar e que eu já despontava interesse no mercado de trabalho, vida profissional, vale refeição…enfim, essas coisas que uma menininha de 12 anos pensa. É, 12 anos!

— Pai, não!!!!! É PIANO!

Não me lembro exatamente quais eram os dias que eu tinha que ir no curso-de-datilografia, mas “gazear” a aula-de-datilografia, nem pensar!! Foi então que eu ganhei um par de botinhas de chuva, as galochas, é, essas mesmas ( a minha era bege). E, na “minha época”, asfalto na cidade era só nas vias principais. — “…mas pai, choveu muito e tem muita lama!” — “Bote suas botas e vá!”

asdfg — çlkjh — asdfg — çlkjh — asdfg — çlkjh — asdfg — çlkjh — asdfg — çlkjh —

Acabou a fita, troca. Emparelhe a sulfite e solta a trave. Ajuste a estética! Ichi, saiu a tecla! N-ã-o o-l-h-e p-a-r-a o t-e-c-l-a-d-o-o-o-o-o!!!

— asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg

Minhas botinhas foram a minha maior companheira naquele ano. “Gabaritei” na prova final de datilografia e um ano depois eu datilografava profissionalmente — uau!!! — no único Escritório de Contabilidade da minha cidade com pouco asfalto. Eu fiquei feliz da vida!

Hoje eu acho que, na verdade, quem não interpretou direito aquele dia, fui eu. Cresci, comprei outras botinhas, me formei em Pedagogia e Jornalismo e n-u-n-c-a aprendi a tocar piano! Aliás, coordenação zero para instrumentos musicais. Mas datilografar…ops...digitar, isso sim!

Escrevo, digito e datilografo histórias — sem olhar nas teclas!!!!! Mentira.

Obrigada, pai. Você me manjou!

asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg — asdfg

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.