A cascata da generosidade

Hoje meu dia começou com uma situação de trabalho que me deixou bem desconfortável. Relato abaixo toda a cadeia de reflexão que determinada situação me causou.

Meu chefe é um senhor muito rico que foi (e ainda é) superprotegido pela família. Teve uma vida sem dificuldades, não precisou fazer esforços na área de liderança para obter resultados e cooperação de pessoas. Não precisou, por conta da submissão de quem está à volta, desenvolver habilidades sociais, muito menos teve qualquer situação onde precisasse aprender resiliência ou a acatar ordens.

Essa realidade parece atrativa para muitos, mas a superproteção da família e sua criação que o levam à dependência de empregados para fazer qualquer ação por ele, por mais simples que seja, não o prepararam para a gama de relacionamentos que advém como consequência de se assumir uma posição hierárquica importante na empresa da família. Ele caiu de paraquedas e se viu como membro de um Conselho de uma grande empresa, sem ter passado pela tão necessária maturidade profissional que adquirimos ao longo do tempo.

E Capitalismo é Capitalismo, não é mesmo? Não esperem solidariedade e paciência dos outros membros do Conselho, que são seus familiares, mas que se prepararam e trabalharam a vida toda para assumir tais posições. O que quero ilustrar é: imaginem-se vocês em uma importante reunião sobre medicina nuclear e nanotecnologia, que está acontecendo no idioma Alemão. E que vocês (assim, como são hoje, com os conhecimentos que possuem hoje) foram colocados lá com o título de autoridade no assunto, com poder decisório que influenciará toda a pesquisa. Mas daí quando você abre a boca é um desastre sobre o tema, e não teria como ser diferente. Emite opiniões simplórias, óbvias e que qualquer leigo de quinze anos de idade emitiria. E imagine que os renomados cientistas lidam com a situação de maneira sarcástica e irônica, pressionando você até que perceba o quão desprezada é a sua opinião.

Pois bem, voltando à situação de trabalho: o chefe me pediu para resolver um assunto do qual não estava conseguindo encontrar soluções há vinte dias. Como é um tema ao qual estou muito habituada e treinada, consegui encontrar uma solução no mesmo dia, a um ótimo preço, e o informei com alegria, feliz com o resultado, feliz por tê-lo ajudado. E ele veio correndo para o escritório para assinar alguns papéis de formalização.

Porém, para minha decepção, ao invés de me elogiar ou agradecer, chegou me dizendo que ainda bem que ELE havia encontrado esse ótimo canal de comunicação (o que eu usei), e de como a ideia DELE de fazer uma pesquisa dessa forma que ELE havia pensado havia sido espetacular. Continuou dizendo que conta disso havia economizado muito e que agora queria que eu me informasse sobre como usar essas vantagens no tal canal de atendimento que ELE havia descoberto.

Tudo que foi pensado e executado por mim, ele atribuiu a ele, tirando completamente qualquer mérito que me caberia. Fiquei muito chateada, achei injusto e pensei ser uma provocação, pois não estava acreditando que estava ouvindo o que ouvia. Eu havia feito por merecer e era justo que recebesse o reconhecimento.

Pois bem, fiquei chateada, mas já consigo ter auto controle suficiente. para deixar passar sem que eu reclamasse, porém fiquei machucada.

Na hora do almoço, fui para a terapia. Meu psicoterapeuta pacientemente ouviu a história e meu questionamento final: por que, afinal, eu não consigo ter uma relação normal com as pessoas? Por que é que comigo tudo é difícil? Era um simples “obrigado”. E eu não consigo ter, pois não consigo despertar o carinho das pessoas, não tenho carisma.

E sua primeira pergunta foi: a sua relação com seu marido é boa? Disse que sim, que há essa naturalidade de dar e receber elogio, uma declaração, um reconhecimento.

Ele começou derrubando minha primeira tese que “TODOS” os meus relacionamentos são assim, e me disse que eu estava apenas contabilizando as relações onde encontro dificuldade e esquecendo das outras que tenho sucesso. E por fim, ele disse:

  • Por que não fazer a mesma pergunta sob uma perspectiva diferente? Ao invés de você se perguntar por que ele não consegue te dar um simples mérito, você não se pergunta “por que será que ele precisa tanto obter algum mérito? Por que será que ele precisa contabilizar todos os seus méritos e acertos como se fossem dele?”

Bem, a resposta pra mim já ficou muito clara: simplesmente por que ele não tinha outras fontes de onde obter reconhecimento. Todo o mérito que ele obtém hoje em dia é através do meu trabalho. E como eu disse antes, todos nós precisamos de reconhecimento e de nos sentir valorizados. Ora, na vida ele já não tem muitos méritos ou grandes feitos, pois não teve ambiente e estímulo para isso. E as reuniões com os preparadíssimos familiares são uma tortura intelectual para ele.

Ele finalizou com uma analogia que me deixou ainda mais claro o cenário:

  • Imagina que é comida. E que você está há dias sem comer. E você precisa comer, está morrendo de fome. Daí chega alguém com dois pães de queijo. Você agarra, devora, engole sem nem prestar atenção à sua volta, tamanha a sua necessidade. Você só está querendo matar a sua fome e tirar este incômodo de dentro de você. Não tem necessariamente nada a ver com a pessoa que chegou com os pães.

Saí de lá muito em paz, porque vi que é possível criar empatia pelas pessoas, mesmo por aquelas mais difíceis. Passei a enxergar de uma maneira mais racional e muito mais de acordo com a realidade do que minha versão automática “passional” que havia interpretado como ofensa pessoal, sem levar em consideração as aflições do outro. E, gente? Vamos entender de uma vez por todas? Se está na sua frente como dificuldade, é você que tem que mudar o modo de olhar. Você! Você não vai mudar o outro e ele não tem culpa de ser uma dificuldade pra você. Sejamos humildes. Tenhamos a grandeza de sermos humildes.

Ao tirar as lentes maldosas automatizadas e ao colocar as lentes de bondade para ver o outro com olhos generosos, compreendendo as “fomes” e necessidades de nosso semelhante, compreendendo que a maneira como a pessoa age diz muito mais sobre ela e suas aflições do que sobre algo pessoal contra você, afinal a história daquela pessoa não começou ali naquele momento. Nunca sabemos os motivos que a levam a agir assim. Talvez esteja machucada, talvez tenha aprendido a reagir de certa forma e simplesmente não tem conhecimento de qualquer outra maneira de agir.

Saí muito em paz de ter tido esse olhar bondoso porque interpretei como um atendimento às minhas preces ao nosso Mestre Jesus para me colocar cada vez mais nos caminhos de luz que ele traçou para a humanidade. Tenho estudado os ensinamentos do Mestre através da Doutrina Espírita, e sempre peço aos amigos espirituais para me darem oportunidades de desenvolver minhas fraquezas. Uma delas é a tolerância, e ao olhar com olhos de bondade para nosso semelhante, me senti muito mais harmonizada com meu objetivo de seguir os ensinamentos do Cristo. Muito mais satisfeita do que se tivesse iniciado uma disputa para esfregar na cara do chefe que o mérito havia sido meu.

Caridade é doar e doar é o instinto natural de toda a natureza. O Sol nos doa a luz para as plantas se alimentarem, e essas por sua vez doam suas sementes e riquezas ao solo para se multiplicarem. A chuva dá condicçoes ao solo , que por sua vez dá condições aàs plantas, que dão condicçoes de vida a várias espécies que dáo condiçoçes à outra. Hoje, eu precisei doar um mérito a alguém que estava com mais fome do que eu, mas recebi a doação de todo o conhecimento. e estudo do meu terapeuta, que recebeu minha gratidão, e por aí se inicia e vai infinitamente a grande cadeia de doações. Quanto mais as tornarmos espontâneas, mais espalharemos e receberemos, assim como na natureza harmoniosa.

Todos nós temos algo para dar em favor de nosso semelhante, seja comida, saúde, tratamento, dinheiro, abraço, carinho, amor, compreensão, conhecimento. Tudo isso é caridade.

Meu terapeuta certamente teve a intenção de me fazer enxergar a situação de uma maneira racional e inteligente, porem assim como Jesus disse, todos os caminhos levam a Ele. Renato tem essa bondade dentro dele porque o Cristo trouxe a bondade, o olhar amoroso para o Planeta Terra. Entendem essa cadeia? Ele, Jesus Cristo, foi que veio ensinar a uma humanidade barbara, que o caminho é o amor e a bondade. O conceito da importância do amor é dele e antes dele era ignorado. Está na História da Humanidade. Não nos esqueçamos jamais de reverenciar este ser de altíssima luz. E olhar com olhos da bondade para nosso semelhante pode ser um começo, um primeiro passo, para aqueles que querem seguir os ensinamentos do Mestre.

Hj estou em paz intelectualmente e espiritualmente.