Hoje chove.
Jogo corria. A furia dos tacos estourando nas mesas, bolas correndo lisas para dentro dos buracos. Copos de cerveja, iluminados pela luz amarela do lustre logo acima emolduravam gargalhadas entre eu e meus camaradas. Depois de uma longa semana, era justo que desperdiçácemos um pouco de tempo e do pouco dinheiro que tínhamos com alguma bebida, sinuca e conversa furada. Foi aí que te conheci, para foder com minha cabeça por um bom tempo. Teu jeito beatnik — meio Hepburn, meio Kerouac -, tua camisa listrada vermelho com branco, tua jaqueta de couro no verão porto-alegrense. Te odiei desde o primeiro instante, condenado àquela atração fatal. O olhar blasé jogado pros lados, enquanto mordias os lábios vermelhos de batom: tortura. Riquinha, filha de pai promotor e mãe médica, tinha cansado de ser mimada. Esticava carreiras e carreiras de pó sem pudor nenhum em cima das mesas, apenas para parecer ser malvada. Merda, tu quer me foder desse jeito. Diferente de ti, não tenho pai riquinho pra me tirar do presídio. Com teus 18 anos, já tinha usado de tudo. Apaixonada por rivotril e lexotan, se envolvia com donos de bares famosos, músicos, atores e artistas em geral tão drogados quanto. Por trás da beleza, por trás da maquiagem e da aura mágica, teus olhos arregalados deixavam transparecer uma ansiedade discreta como o tremor em tuas mãos de unhas roídas. Aquela noite eu acabei no teu apartamento. Não me lembro mais de tantos detalhes, depois de tanto tempo. Sei que era uma cobertura em uma das avenidas mais famosas da cidade. Que tinha um cachorro irritante, chamado scooby — irritante como um prego dentro da bota — e que só a maçaneta já devia valer mais que meu apê de um quarto no extremo norte, com piso estourado e sofás rasgados. Achei engraçado o quanto é fácil ser inconformado com o status quo dormindo em um colchão de R$ 10 mil. Não interessa, não vi diferença nenhuma entre foder no tal colchão ou num canto da sala, no chão. Segue o baile. Tua loucura, tua inconsequência, tua irresponsabilidade. Tudo isso me incomodava, mas excitava meus instintos mais profundos. Tu sempre gostou desse jeito marginal. Achava bonitinho o suburbio, a exclusão, a rebeldia incompreendida da periferia. Quando se dorme em um colchão de milhares de reais, tudo fica mais poético. Esse jeito meio beatnik, meio sujo. Esse cabelo meio mal cortado, com roupa velha. Tudo isso te atraia. O cult e o underground era um estilo de vida, e a futilidade imperava. A despeito disso, tu me atraía de maneira violenta. De maneira sádica e intensa, que poucos mortais aguentam. Me fazia suar de medo, suar de tesão, suar de vontade. Pra depois rolar pro lado, tomar mais uma dose de uísque, dar uma gargalhada e fingir que não estávas ali. Bandida. Nesta brincadeira fui me envolvendo contigo, do jeito que dava. Eu, pobre, me fingia de descolado minimalista. Tu, doentia, jogava com meus sentimentos escondidos. Tu eras a fumaça do meu cigarro. O gole da minha cerveja. Rápida, breve. Aparecia, me fazia feliz, para logo ficar no passado. Inconstante paixão. Depois de tantas brigas e surtos psicóticos, nos afastamos. Depois dos teus porres, enquanto tentavas jogar em mim os pratos apenas de sutiã, os períodos de tranquilidade acabaram. Lentamente descobri que não fazia parte do teu mundo, e que tu já me vias como um invasor. Fui embora, sabendo que te amei desde o primeiro momento. Agora me pergunte, por que lembrei de ti hoje, depois de tantos meses? Simples. Recebi uma ligação com notícias tuas, enquanto levantava da minha cama. Teu carro capotou, tua cabeça bateu. Tu estás em coma, e são poucas as chances que tu acorde um dia. Hoje chove em Porto Alegre.