No teu carro
Entrei com cautela no teu carro. Realmente, não sabia o que esperar de ti. Cinto de segurança é essencial quando no carro de uma louca. O mesmo de sempre, como era o obvio: gritos, ameaças de suicidio, tua calcinha no chão, transa. Não era o que se pode chamar de entediante, mas previsivel. O mais engraçado é que a loucura transparece nesse teu sorriso, emoldurado pelo batom vermelho. Teus olhos brilham com a velocidade na freeway, e o delineador faziam questão de deixá-los ainda mais insanos. Entravas na contramão apenas por diversão (ou seria pelo efeito do alcool no sangue?). Confesso que estava me divertindo também. 100 por hora, fugindo da policia, no meio da madrugada, rezando para o carro não deixar a gente na mão? Se não visse o sol nascer na cadeia, eu veria ele na praia. Não me pergunte como, acordei na praia aquela manhã. Deitado na areia, de camisa branca e gravata preta. Jogado, contigo me beijando. O melhor amanhecer de todos. E olha que ao teu lado, muitos chegaram bem próximos à perfeição. Na areia, no meio do inverno, estávamos sozinhos, separados por quilômetros de qualquer pessoa. Finalmente, havia conseguido: a mais obcecada perfeccionista havia me dado um amanhecer psicoticamente feliz. Medo da tua insanidade sempre tive, mas ela se encaixava na minha. Insecrupulosa, destemida e sempre distante. Assim era a garota que me deu um ultimo beijo, antes de voltarmos para a capital. Olhou nos meus olhos, como quem se despede. Me beija como quem diz adeus. Daquela vez, deste razão ao meu sentimento. Horas depois jogaste teu Opala preto de um desfiladeiro isolado. Fui o primeiro a saber. Metade de mim acabou no fundo daquele buraco, junto de ti.