Noites de verão

A monotonia é o que há de mais perigoso para mim. Me entedio facilmente, e isso me impulsiona a fazer coisas insensatas, principalmente em noites quentes de sexta-feira. Entrei com o pé esquerdo no bar, em um dia que nem de perto foi bom. Estressado, tudo o que me resta é tomar uma cerveja sozinho, fumar o último cigarro e caminhar até minha casa, sob o céu de estrelas pálidas. Puxo do bolso meu bloco e a caneta nanquim, para rabiscar poemas acompanhado da bebida solitária. A tinta fere o papel ranhurado, com versos de uma poesia alcoólica. A folha, suja de café, já estava usada. Não importa, para contos de amor e morte, os rabiscos e escarros não contam.

O cigarro de filtro amarelo queimava no cinzeiro, deixando um fio de fumaça subir lentamente pelo ar. O copo, suado, escorrega da mão, enquanto eu, concentrado na escrita, tento puxá-lo para mim. O vidro escorrega e se estraçalha no chão, desfazendo-se em mil pedaços. Foda-se, vai ficar assim. Volto para o papel.

Rapidamente, ouço a perna de madeira da cadeira em frente ranger contra o piso sujo. Tu te sentas, abusada, sem pedir licença. Com os cotovelos na mesa e sorriso bobo, pergunta se eu estou bem. Insiste, atrás de algum eventual corte que o copo suicida possa ter deixado. Toma minha mão direita, apertando-a atrás do ferimento hipotético, enquanto olha nos meus olhos com cara de uma leoa pronta para devorar a presa. Óculos de aros grossos e armação castanha combinavam perfeitamente com o batom cor de vinho. As sobrancelhas pareciam me questionar, enquanto teus dentes apareciam naquela risada bandida. Pegas do meu cigarro, e dá uma tragada. Puxa assunto. Pede outro copo ao velho garçom, que vem balançando a barriga e a careca, brigando com o idiota que deixou o copo cair. Tu pegas a minha cerveja, e serve no copo. Aquela Pale Ale forma um suave colarinho que tu beijas devagar. O cheiro da cevada entope minhas narinas, misturado com teu perfume. Tu és, para mim, uma experiência sensorial.

Pouco tempo depois, como em teus planos, nos beijamos. Os lábios de vinho estavam gelados, e a lingua trouxe para mim o sabor da bebida. Me chamas para a rua. Caí numa armadilha, e agora tu mordes meu pescoço sem piedade. Covardia.

Entramos no primeiro táxi que desce a Manoel Elias em direção ao Centro, após aquele beijo gelado. O calor da noite é combustível para eu te querer mais e mais. A volatilidade de nosso toque demonstra o poder de estarmos atraídos um pelo outro, de maneira descomunal. No teu apartamento, a chave quase não entra na porta. A confusão de roupas e calçados sendo arrancada acorda uma vizinha. A velha abre a porta com cara de brava, para me ver já sem camisa arranhando tuas costas, enquanto tu lutas para me fazer entrar. Sem vacilar, executas o movimento cirúrgico: Me puxa pra dentro, bate a porta, calcinha no chão. Que mais uma paixão comece.

Agora, minhas roupas estão no chão, ao lado do teu sofá. Eu, sentado, escrevo estas linhas no bloco, enquanto dormes no meu colo. Linda, há anos esperei por esta tua chance. A anos esperei para ti me dar este céu.

Me levanto devagar, sem te acordar. Me visto, rapidamente. Hora de ir embora. Mesmo te conhecendo a tanto tempo, duvido que tu te lembres dos anos que fomos colegas. Mas isso não importa mais. Escrevo meu telefone, e deixo em cima da mesa. Merda, perdi meu telefone hoje. Tinha esquecido. Foda-se, não vou deixar nada para trás.

Lentamente, saio pela porta, esperando que sintas minha falta pela manhã. A minha caminhada é longa, sob as pálidas estrelas desta noite quente de verão.