Perdido
Decidi escrever sobre ti enquanto voltava pra casa, perdido na estrada, num caminho sem retorno. Sobre teus óculos redondos, tuas calças rasgadas, cabeça virada e olhos redondos. Sobre teu pescoço, teus lábios, teus desenhos mal feitos e os papéis dobrados. Estes, guardei na tua gaveta, com minha assinatura, pra que quando tu achares, te lembres dos dias que estive por aí.
Nesses dias, fugi da minha cidade. Do ar viciado de concreto, da fumaça de carbono nos pulmões. Da sensação de tudo caindo aos pedaços, de sofás rasgados e televisores queimados, da sensação de que meu próprio corpo é somente um cadáver ainda vivo, pronto para apodrecer. Nestes dias, fugi para o norte, para me jogar nos braços da liberdade de não estar preso a nada. Sem prazos, sem protocolos, sem certezas. Apenas precisava fugir.
Esses dias acordei meio enjoado, meio chato, meio sem dinheiro. Acordei na tua casa, de porre, pronto para beber mais. Esperando o blues que tocava terminar, para virar o lado do disco. Merda, quem além de ti consegue me tirar do meu buraco? Quase te detesto.
Descobri que te queria enquanto andávamos pela madrugada. Bêbados, confidentes. Isso só pode acabar mal. Só pode acabar com um sorriso malvado de canto de boca, me desprezando enquanto me sobe a vontade de te beijar. Finges que não vê.
Enquanto penso no teu cabelo bagunçado, no teu sorriso debochado, nos teus pensamentos malucos, tu esperas a ligação de qualquer rockstar decadente. Quase gosto desse teu lado viciado. Ele liga, enfim, perguntando por mim. Deve ter sentido meu cheiro no teu corpo.
Quando tu me largas, caio pra outra. Se eu não fosse tão inseguro, diria que tu chegou perto de sentir ciumes. Guria dificil, tu não és pro meu bico. Opções melhores que um bêbado sem dinheiro tu tens de sobra. Esqueço tudo isso, quando confesso minha vontade. Quero morder teus lábios, e quero já. É o começo.
A noite acaba no teu quarto. No teu quarto, um beijo encerra nossa noite. Como eu te odeio. Só mais uma mordida no pescoço, antes do final. Tomara que teu chefe veja esse roxo. Bom é saber que vais passar o dia cobrindo com o cabelo a marca do beijo que deixei em ti. Bom saber que vais passar o dia pensando em mim.
Pela manhã, um analgésico, visto minhas calças e vou embora devagar. Talvez a gente se encontre quando o blues tocar de novo. Talvez no fundo, eu mesmo saiba, que a vida não tem graça quando se tem alguém.