Sapiosexual (ou ‘Sentados na Janela’)
Lá estava eu, de novo, no meio de mais uma crise momentânea de solidão. Mas gente que pensa me dá um tesão fodido. Sério, é uma coisa natural minha. Sapiosexualidade é como chamam, ou alguma merda do tipo. Quase não tive escolha quando te peguei dentro da biblioteca. Mas de repente estávamos lá, numa confusão de calcinhas perdidas, pernas e cabelos sendo puxados. Tua cara de satisfação fazia a vida valer a pena. A cara de horror da senhorinha bibliotecária também. Nossos gemidos misturados ao grito pelos seguranças. Melhor crise de riso da história. Nem o segurança se conteve com a cena do casal de universitários bêbados e pelados fingindo ler grossos livros de filosofia aristotélica para disfarçar a foda. Rimos muito, todos juntos, até sermos arrastados para fora, abaixo de mau tempo. A bibliotecária — que não riu nem por um segundo — fazia o sinal da cruz e nos olhava com desaprovação, possivelmente pensando nessa nova geração, perdida e sem valores. Hilário. Enquanto a família tradicional se remoía nas entranhas, nós dois, hereges, fugíamos. O guardinha, do alto de sua camisa azul apertada pela barriga de chopp não conseguiu correr atrás de nós, assim que saímos do prédio. Nos jogamos no meio da multidão que saía das aulas. Próximo destino, tua casa. Quando o sol nasceu estávamos sentados na janela do teu apartamento, no quinto andar de um prédio fedido na João Pessoa, dividindo o último Marlboro da carteira. A cabeça doía, o mundo girava, e teus olhos brilhavam. Não sei se por loucura ou por encanto. Sei que eu estava me cagando. Sempre me caguei rode medo de altura. Sempre me caguei de medo de gente louca. Ultimamente, tenho sido um ímã pra gente louca. Quatro meses de pseudo-solteiro foram o suficiente para quase morrer algumas vezes. Acho que chegou a hora de sossegar. Acho que reencontrei um colo louco o suficiente pra me acolher. Acho que te encontrei, guria. Hora de ir embora. Caminho pela avenida arrastando os coturnos desamarrados. Esperando o meu ônibus, tu me liga. Me chama de filho da puta, desgraçado, diz pra eu sumir da tua vida. Ok, não é dessa vez que vou sossegar. Só consigo te perguntar, por que tanta revolta? por que eu tinha que ser banido da tua casa? A resposta: -Seu filho da puta, tu deixou a toalha molhada em cima da porra da minha cama!