Sobre noites de sono perdidas

Um bar sujo com música ruim. Finalmente haviam me tirado de casa. Saio do boteco com um maço de cigarros sem filtro na mão, e com os olhos girando em milhões de cores. Bebendo uma cerveja e conversando com um amigo, caminhamos por uma rua escura olhando por cima dos ombros, temendo uma sirene vermelha que podia acabar com a diversão. Vamos indo devagar até a avenida completamente lotada de bebados amadores, tomando destilados com energético. Minha aversão por humanos faz subir uma pequena ânsia de vômito. Vamos lá, é por uma boa causa. O porre é necessário hoje. Na porta da boate, dois garotos me chamam. Não tenho nem ideia de quem seja, mas tinham uma garrafa de uísque na mão. Não custa ser falso um pouco, não é mesmo? Eles conheciam meus poemas, e foram logo puxando assunto, me rasgando em elogios idiotas. Não escrevi meus poemas para eles, não importa a opinião deles. Mas o sorriso continuaria no rosto enquanto a garrafa estivesse perto. Mais alguns se aproximam, em meio à conversa, e mais bebida vou ganhando. Beijo algumas bocas indistintas, sem nem olhar nos olhos. Apenas direcionamento de desprezo para movimento de língua. Devassidão me conforta quase sempre. Alguém tira o chapéu da minha cabeça, e já me viro pronto para a briga. Uma voz doce, amarrada em um perfume delicioso, me chama pelo nome. Lembrava ter visto ela só uma vez, e de nunca termos conversado. Ela me entrega uma garrafa de vodka. Uma vodka boa, com um sorriso cheio de malícia. Ok garota, tu acabas de ganhar exclusividade. Vamos para um canto longe do alvoroço, onde conversamos com as testas coladas. Incrivelmente ela lembra meu nome -óbvio que eu não lembrava o dela — e disse também gostar dos meus poemas. Me deixa sem jeito, e vai me enrolando na sua conversa. Entre um beijo e outro, me pede para virar história também. Queria ser poema, a guria. Pode deixar, garota. No final vou te transformar na doce rima. Fomos nos beijando, e a vodka esvaziando. Ela se impressionou com a quantidade que eu bebia, enquanto eu ria da carinha de nojo que ela fazia do cheiro cortante subindo por seu nariz. Quando eu vi, já estavamos em baixo de uma mesa, com mãos arranhando costas, lábios sendo mordidos e cabelos sendo puxados. Não tinha mais fôlego nem para respirar. Presa nas garras de um amor bandido, ela parecia totalmente entregue, após algumas horas. Subitamente, ela me pediu um tempo. Precisava ir ao banheiro. Aceitei, e ela se levantou. Esperei alguns minutos, e nada. Quase uma hora, sentado embaixo de uma mesa, feito um idiota. Ela não voltou. Merda. Nem sempre a noite acaba bem. Me levanto com toda a classe possível a um bêbado, pego um táxi e vou embora. Já passou do tempo de eu ir dormir.