Solta essa faca!

Não sou escritor, sou fotógrafo. E um fotógrafo ruim, ainda por cima. Procuro fotos que retratem fatos. Meu cotidiano exposto, visceral. Te peguei nas minhas lentes entre a meia-luz do teu quarto. Te fotografei entre cabelos e cobertores, com as estrelas tapando o rosto para nós. Renegados, como somos. Nossas famas não são das melhores, convenhamos. Elas correm mundo, enquanto corremos perigo. Entrei pela porta do teu apartamento atento. Todos te chamam de louca, psicopata e afins. E eu sou o velho mais desconfiado do universo. Chequei cada cômodo, esperando uma bomba ou algo do tipo, antes de cair no carpete por baixo de ti. Beijos, tapas, arranhões… Caralho, não negas a fama.

Mas obvio que o meu ímã pra gente louca não poderia falhar, não? Acordo, tonto, com os olhos embaçados. A cabeça pesa, e ainda é madrugada. Tento me mexer. Não consigo. Mãos amarradas. Mas que merda. Por sorte é um nó de bosta. Tu és louca, mas não é escoteira, graças a deus. Me solto rápido, e tento achar minhas roupas. Hora de dar o fora daqui. Mas onde diabos tu escondeu as minhas roupas? Cadê minha carteira, que eu deixei aqui em cima da mesa? Minha mochila? Mas que inferno! Vou atrás de ti. Lá está, com os ombros cobertos pelos cabelos castanhos, usando minha camisa e nada mais. Quase sorrio, antes de ver tua mão. Isso é uma faca? Calma aí, o que tu estás fazendo com isso na mão?

Loucura é normal, mas ser atacado no meio da noite já passa um pouquinho do limite. Sem tirar essa risada do rosto, tu te jogas pra cima de mim, e eu me esquivo numa dança rápida. A faca, afiada, corta o ar com uma precisão incrível. Eu me esquivo. Deixo o braço pra trás, e a lâmina me corta. Merda. O sangue corre, e tu dá risada. Eu, me apavoro. Saiu totalmente do controle.

Já vi: Se eu não tomar uma atitude, é hoje que eu morro.

Pulo pra cima da faca, e seguro pelo cabo. Essa merda com a lâmina apontada pro meu peito não é muito agradável. Tu te solta, como uma gata pulando. Mais risadas, mais desespero. Outra investida minha contra a faca, e ela também parece rir, no seu aço frio. Ali ficamos alguns minutos, enquanto me torturavas, antes de eu conseguir. Peguei! Duas mãos no cabo, enquanto tu empurras. Te olho: Teus olhos negros me apaixonam.

- Eu te amo, filho da puta — diz, enquanto soltas a faca. Me abraça, me beija, me arrasta pra cama entre gargalhadas, enquanto fico com cara de idiota. Tu sabes que a carne é fraca….

Preciso de mais noites como essa.