“Mas você é um homem branco heterossexual de classe média.”

Porque o argumento do viés do privilégio social não contribui em nada para uma sociedade mais igualitária.


Não há como negar, analisando a nossa sociedade, que ela está abarrotada de contradições e divisões. Vivemos em uma sociedade que está dividida por classes, gênero, cores, etnias, orientações sexuais, religiões e outros fatores. Não é incomum ver essas divisões favorecendo uma parcela da sociedade em detrimento de outra.

Devido à essa divisão na nossa sociedade, estabeleceu-se uma espécie de consenso que as parcelas afetadas negativamente por essa divisão deveriam ser protegidas de todo e qualquer ataque ou questionamento por parte daquelas parcelas que eram favorecidas. Foi nesse contexto que surgiu o conceito do politicamente correto e das políticas de minimização de danos e afirmação social que existem hoje em nossa sociedade.

No entanto, em certas situações, o politicamente correto acaba atrapalhando mais que ajudando. Um exemplo disso é o argumento do viés do privilégio que qualquer pessoa que já participou de um número suficiente de discussões na internet já ouviu. Na internet anglo-saxônica, esse argumento é invocado principalmente através da frase “check your privilege” (cheque seu privilégio), e o argumento tem supostamente como principal objetivo alertar aqueles que possuem alguma espécie de privilégio que esse mesmo privilégio lhe confere alguma espécie de viés, de barreira cognitiva que lhe torna incapaz de compreender o sofrimento que aquele que é desfavorecido enfrenta.

O problema desse argumento, é que ele acaba se tornando uma espécie de pedra gigantesca feita para esmagar toda e qualquer tentativa de discussão que envolva a questão da desigualdade social. Basicamente, é como dizer: “Você jamais entenderá como eu me sinto, portanto, cale a boca, desculpe-se e concorde comigo incondicionalmente”.

Esse argumento é nocivo, principalmente porque, além de desestimular qualquer discussão, é preconceituoso, pois faz suposições sobre a pessoa com quem você está falando, dentre elas, a suposição de que uma pessoa que está numa posição privilegiada não possui capacidade de empatia, de compreender o sofrimento de um outro ser humano, o que, ao meu ver, nega a própria base da natureza humana que todos dividimos; é o tipo de argumento maniqueísta que ignora as nuances dos seres humanos.

É claro que somente um indivíduo sabe exatamente onde o calo dói, e indivíduos que dividam as mesmas características e experiências vão compreender melhor o sofrimento um do outro. Uma mulher transsexual vai entender melhor o sofrimento de outra mulher transsexual que, por exemplo, uma mulher cisgênero; um preto vai entender melhor o sofrimento de outro preto que um branco, e assim sucessivamente. Mas, mesmo que haja mais em comum entre esses indivíduos, não quer dizer que eles sejam idênticos ou que se entenderão em todos os aspectos, da mesma forma não significa que alguém que não pertença ao grupo do indivíduo não será capaz de compreender, mesmo que de forma incompleta, o que o outro está passando.

Usar o argumento do privilégio muitas vezes também acaba por menosprezar a capacidade intelectual do interlocutor, pois assume que todas as opiniões que ele tenha são frutos unicamente de sua socialização e não de sua própria racionalização, e não leva em consideração o conteúdo do argumento que está sendo apresentado.

Se, por exemplo, você é uma mulher preta e quer que um homem branco entenda que você é oprimida de formas que ele não é, por que não simplesmente explicar? Por que não simplesmente dizer para ele o que você sofre ou de que forma você acredita que ele é privilegiado?

“Mas não é minha obrigação educar as pessoas sobre seus privilégios, elas é quem tem de pesquisar!”

Ao meu ver, se você pode educar uma pessoa sobre os problemas que você sofre, por que não fazê-lo? Por que não ser você a tentar construir pontes entre as pessoas? Sim, é um trabalho cansativo ter de explicar a mesma coisa pra várias pessoas diferentes infinitas vezes, mas esse é o preço que se paga por justiça social em nossa sociedade. É somente com muito diálogo, com muita conscientização que se consegue um avanço social de fato - esse é o preço de qualquer militância. Mas se ainda assim você não quiser debater com essa pessoa ou lhe explicar nada, ao menos não use esse argumento como forma de tentar invalidar automaticamente todo e qualquer argumento que ela tenha apresentado numa discussão e suspender o debate.

Eu creio que o objetivo de todas as minorias oprimidas é serem aceitas e entendidas como parte da sociedade gozando dos mesmos direitos, tendo direito à liberdade e à busca pela felicidade, e simplesmente ficar apontando o dedo pra acusar o interlocutor de “cegado pelo privilégio” não contribui em nada pra isso.

Mas se, ainda assim, se ainda que você tenha dividido seus sofrimentos e explicado-os adequadamente, a pessoa com quem você está falando recusar-se a reconhecer seus privilégios e continuar apoiando as estruturas de opressão, então pelo menos você pode ter a consciência tranquila de que você fez tudo ao seu alcance para tornar o mundo um lugar melhor e mais tolerante.