Banalidade interrompida

No meio da manhã banal, recebo uma mensagem instantânea, do amigo que está viajando de ônibus: cruzou com um acidente na estrada, um deles morreu.

Olha, a banalidade da vida, às vezes, é tão atroz. Porque eu me peguei no meio de coisas absolutamente sem sentido, depois de ler esta manchete particular. Por exemplo, troquei o guarda-roupas antigo por um novo, já que os tempos mudam, as modas mudam, e os depósitos de roupa e de tempo também querem ser atualizados. Só que, ancião com quase 20 anos de idade, o móvel antigo não nascera para ser desmontado. Inteiriço, pregado e colado, ele não se deixava passar através da porta estreita do meu quarto. Tivemos que retalhá-lo, com ares de crime à uma memória física impossível de ser armazenada em dias de lembranças guardadas na nuvem. Pensei que a saga do armário assassinado daria uma ótima crônica, mas a notícia seca de uma morte súbita gritou no alerta do aparelho, antes que eu pudesse começar a escrever.

Do mesmo modo, mil e acontecimentos banais me inspiram, senão a escrever, ao menos a pensar em escrever, ou mesmo a descobrir sobre o que eu não poderia escrever, ainda que eu quisesse. Como é o caso agora. Assim: antes do homicídio ao guarda-roupas ultrapassado, pensei em como a adolescência é inocentemente cínica, uma vez que, diante da rebeldia do aluno e a autoridade que sua juventude supostamente lhe outorga, senti-me como há muito tempo não me sentia, verdadeiramente irritado e ofendido pelo comportamento do próximo. Talvez porque a rebeldia dele tivesse sido diretamente contra mim, talvez porque eu reconhecesse, ainda que inconscientemente, que me envergonho da minha própria adolescência e de toda a insolência propagada durante ela. E eu entendo insolência não como o contrário de adestramento, nem como sinônimo de vanguardismo. Provavelmente, este seria o tema do texto em homenagem ao jovem audacioso, o texto que nunca vai nascer porque alguém morreu no meio da rua, antes das 8h de uma segunda-feira banal

O carro quebrou, e eu descobri que, hoje, andar à pé acelera o tempo. Explodiu uma impressora em cima da minha mesa, antes do primeiro uso, e eu imaginei o fabuloso trocadilho “a primeira impressora não é a que fica”. Eu preciso emagrecer, mas estou encontrando todos os quilos que a minha melhor amiga vem perdendo com o sucesso de sua dieta, o que me lembrou de como é bom ter sintonia com alguém, ainda que esta sintonia não lhe favoreça exatamente… Enfim, descobri, de repente, infinitos temas e não consigo escrever sobre nenhum, porque no meio do caminho tinha um corpo. Na ida ao trabalho de alguém que amo havia um acidente que atravancou toda a minha imaginação. Então eu me senti fútil e não fui capaz de escrever sobre nada, porque tentei algumas vezes e não fui capaz sequer de escrever sobre a banalidade que é morrer antes do meio dia, a caminho de qualquer lugar. O homem e sua trajetória interrompida pela morte interrompeu o percurso do ônibus que interrompeu o horário do meu amigo que me enviou o instante via mensagem que me contou sobre o ocorrido que interrompeu minhas intenções e meus anseios de vida. Tudo isso assim mesmo, sem vírgula, sem pausa pra respirar.

É que, de repente, morre-se e, ao contrário do que aparece na TV, os dias não dão um minuto de silêncio em memória dos que se vão. Que 24h são o tempo exato para que a vida aconteça diariamente, sem cortes, sem edições, sem enfeites nem intervalos, sem grandes intenções. Apenas uma banalidade que interrompe a outra, num efeito dominó às avessas. Quem sabe, ao final de tudo, tanta banalidade atravancada forme uma figura que nos devolva a criatividade afogada no banal de viver.