Café

Na caneca, o último gole sempre por ser dado. Uma fina camada cor marrom sobre o fundo alvo que, com certa inclinação curiosa, voltava a ser negra num canto inferior. Eu precisava me curtir mais, pensou com um pouco de desgosto. Me degustar. O café era amargo e forte. A porção do fundo, o resquício morto do que começara sendo um promissor calor nos lábios, a porção que, sozinha, não era nada na caneca, ficava abandonada, depois de um ritual quase religioso no qual ele queimava a língua por pura falta de adestramento. E quando a bebida não mais ameaçava, sobrava uma frustração. Como quem de repente, bem no meio de um banho, descobre que o frasco de xampu está vazio. Era uma banalidade. Ele não conseguir esvaziar a caneca era a frustração de uma ausência súbita. Só que eu preciso me aproveitar, ele insistiu, enquanto pousava a caneca com o sobejo da noite. O objeto na mesinha tornou-se, então, mais um aspecto da paisagem. Assim como seu rosto no meio da sala. Imóvel, quase sem feição, ele percorria a cavidade da boca com o paladar, lembrando-se do café que acabara de beber, sem intenções. Aliás, sempre que se dava conta, conversando com alguém, de que havia quem fizesse coisas banais, como tomar café, com um propósito em mente, tal qual permanecer acordado durante uma longa e exigente madrugada, quando ele despertava para o fato de algumas coisas simples serem apenas instrumentos, ele voltava a sentir a frustração do banho interrompido. Ele que tomava café porque era amargo e forte, sem pretextos. Ele que simplesmente deixava um gole no fundo da caneca só pra não fazer a menor diferença. Ele queria se degustar mais. Um dia, lhe disseram que mexer a bebida com um pau de canela seria ótimo. Aquilo era de uma falta de sensibilidade enorme. Não porque ele primasse muito por uma pureza, dessa vulgaridade ele não sofria — ou tentava não sofrer. Mas a ofensa, no caso, era mais uma questão de se preservar. Ele não suportava a intromissão. Achava que precisava se deter, ao invés de expandir. Então, quando tomou café no dia que lhe aconselharam a canela, ele sentiu que se degustava pela primeira vez, por ter rejeitado algo de fora. Ele queria novamente sentir esse grande prazer de ser a própria companhia. E se ele fosse um solitário, talvez fosse mais fácil. Mas entre família querida e amigos amados, não sobrava tempo. Tanto que, às vezes, ele se esquecia de como era estar só sem tristeza. Olhando para a caneca e meditando, todos esses pensamentos o transtornaram. Porque se fosse mesmo assim, seu café sozinho ao cair da noite também era um instrumento. Amarga e forte, a poça no fundo como que não esperava nada, apenas ser estorvada à pia. Amargo e forte, ele procurava um jeito de não ficar triste na solidão provisória. Recolheu a caneca, então, e abraçando-a bem com as duas mãos, bebeu com solenidade a sobra fria. E esse gole gélido não foi um desamparo. Desceu com dificuldade, a garganta travando o amargo forte que talvez só fosse bem-vindo quando trazido pelo calor da chaleira. Mas desceu, numa satisfação banal. Banal como adicionar água ao frasco do xampu, para não desperdiçar um banho inteiro. A satisfação de estar consigo conseguindo não entristecer caiu forte, amarga e fria no fundo do estômago. No fundo da caneca, o branco da louça parecia mais morno do que a própria bebida. Então ele descobriu que se gostar era uma questão de ir até o fim, e tolerar a frieza da sua última gota.