Confissões de cego (2)

(Setembro de 2013)

Acontece que resolvi, finalmente, aprender o Braille. Eu já desconfiava que seria um processo que exigiria de mim grande parcela de entrega. Primeiro porque ler com a pele pressupõe certo desprendimento mesmo: como quando a gente se predispõe a desbravar um corpo, que precisamos estar preparados para o liso e o áspero. Depois, mas quase que ao mesmo tempo, fui percebendo que o contato necessário se manifesta muito mais na profundez da consciência do que na superfície dos poros. De repente, eu me vi memorizando combinações numéricas, relações entre ausência e presença, o ponto e o branco, zeros e uns. Quase computadorizado, me espantei: eu estava tão automático que precisei ser reprogramado para acordar meu tato e me retratar comigo mesmo e com meus próximos.

Existem histórias e histórias. E cada um que conte a sua do jeito que lhe melhor convencer. O fato é que, entrando em contato com meu mais íntimo eu-aprendiz, abri os olhos e vi sem ver histórias enormes que me ultrapassam. Acho que seria caso de grande dormência dos nervos não se deixar afetar pela aguda impressão, em plena vida adulta cheia de livros e letras escritas e lidas, de que é preciso sentar-se, comportado e ingênuo, numa carteira escolar para aprender a ler e escrever tudo de novo. E nesse tão profundo mergulho em densa camada de generosidade dos que me ensinam, amoleci diante da sensação de ser, novamente, tabula rasa, branco que é zero esperando apenas a punção de pontos, que também são brancos, mas colorem sem precisar de luz. Criança que não conhece o que vê, me emocionei com o retorno à extrema simplicidade: o primeiro livro lido, doce e melancólico, foi “A árvore de pirulitos”.

O contraste é um pouco assustador. Enquanto meus ouvidos me contam, na tela do computador, sobre teorias enormes de como as humanidades são impossíveis de se entender; meus dedos, bastante hesitantes, me apontam para a simplicidade de servir a quem ainda não compreende a si mesmo. Mesmo que a necessidade de servir seja apenas um “servir de exemplo”, sem choques nem esbarroes. As manhãs do Braille têm me socado, dia sim, dia não, quase como o espeto que impõe na folha grossa a marca do que precisa ser dito. Meu corpo, papel 40, me soa, agora, meio pontilhado: ora choro, ora lembro. Às vezes choro por lembrar, outras, lembro de chorar. Choro porque, à minha frente, o futuro é todo uma ausência. Lembro porque, antes de mim, existia outro eu que me delimita, determina em que posição me coloco, de acordo com a situação.

Por exemplo, outro dia, chorei porque pensei que não conseguiria aprender a ler com as mãos. Duas semanas depois, escrevi meu nome completo, endereço e outras banalidades, na minha maior vitória sobre o orgulho. De repente, experimentei, ou julgo que experimentei, a sensação de um humilde agricultor que finalmente não precisa mais sujar o polegar para provar que é quem diz ser. Ou, pelo menos, consegui forte empatia com esta situação. Por outro exemplo, menos apelativo, lembrei-me de todas as vezes, até sair da minha adolescência, em que negligenciei as leituras, por pura super-segurança no que eu tinha visto e ouvido falar. Muito do que eu aprendera até então, não fora necessariamente lendo, porque sempre tive essa mania irônica de observação, mas tudo o que eu aprendi não foi o bastante para me convencer de que tenho mais do que a audição e a visão para me ensinar. Nada melhor do que sentir na pele para fixar bem as lições.

Também confesso que estou muito mais à flor da pele. Confesso ainda que sou meio covarde. Me aproveito do escuro entre os colegas de sala pra chorar, mudo, de impotência pela imprevisibilidade de meu cotidiano, entre um gole de café e outro, no refeitório, durante os intervalos. Me aproveito do escuro das lentes dos meus óculos, porque as cozinheiras enxergam. Eu finjo que elas não percebem, pra suportar o peso da minha lágrima oculta. Elas fingem que não percebem, porque já devem estar acostumadas a lidar com a lágrima dos olhos vazios alheios. E vejam vocês a beleza que é reparar nas ironias que ensinam: aquela que primeiro veio, e quase sempre vem me ajudar, quando me perco entre uma porta e outra da escola, chama-se Lúcia.

Então eu meio que me peguei sonhando, como há tempos eu não fazia. Sonhando do verbo “tendo mil fantasias para uma vida que é toda um porvir”, já que recuei alguns passos e estou feito criança de novo. O receio, no entanto, é de não ser capaz de me deixar levar, sem desespero, pelas imprevisíveis consequências de aprendizados tão primordiais. Em infância é que conseguimos, tão espontaneamente esta leveza de espírito. Nova infância, portanto, talhada, recontada e reconstruída, é o que venho tentando escrever, seja em letra, seja em ponto. Na ponta dos dedos, ou ao pé do ouvido. Sem pressa, sem peso, leve e firme, menino de novo. Ou um novo menino.

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