Confissões de cego

É certo que não foi de repente, já há quase oito anos estou nessa espiral. Mas ficou particularmente marcado o dia em que acordei e não conseguia mais verificar a hora no relógio do meu celular, pousado religiosamente ao lado da minha cama. Lembro-me que, quando criança, pesado de lentes tão grossas diante de meus olhos, eu fingia ser cego, só pra ver quanto tempo eu sustentaria sem enxergar as coisas ao meu redor. Era divertido porque eu sabia que depois bastava desamarrar a venda. O que eu não sabia era que aquilo se tratava de um treinamento. Então eu acordei e quis verificar a que ponto da manhã eu chegara, mas a luz não mais me dizia nada. Perguntei as horas à minha mãe, dedicada ao almoço. Curioso, não te impressiona tanto perguntar as horas pelo relógio ter parado ou pela bateria ter descarregado. A partir daí, entendi que todo fato corriqueiro precisaria ganhar novo peso. Será que já sou forte o bastante para sustentar?

Quando conheço alguém novo, agora, encanto ao declarar que a voz tornou-se o rosto, o meu modo de personalizar o outro. Apelo, dou tom bem poético e tal, falo que se os olhos são as janelas, descobri, cegando, que é pela voz que a alma sai pra fazer visitas. Nem é mentira. A voz denuncia muito melhor do que os traços, mas perceber isso exige mais sensibilidade do que audição. Não, eu não ganhei superpoderes. Não, eu não agucei os sentidos que permaneceram. Eu apenas passei a prestar atenção. Ver é extremamente dispersivo.

Sem querer fazer apologia. A ironia muito me atrai. Não raro me dizem que eu, não vendo, enxergo muito melhor do que a maioria dos olhos sadios do mundo. Embora isso seja gostoso de ouvir, não decidi ainda se mereço esta importância, ou até se a aceito. Tanto porque com ela vem uma responsabilidade imensa: de repente, de menino, passo a ser exemplo, sem me pedirem licença. Eu não sou exemplo. Ou melhor, sou tão exemplo quanto qualquer um. De vez em quando, me aproveito da condição também, sem remorso. É um aspecto, não um obstáculo. Assim como ser muito alto ou baixinho demais, ou ter cabelos loiros ou ser careca, ou ter seis dedos em um dos pés. Coisas estranhas acontecem no corpo, é do corpo que dispomos para agir aqui. Meu corpo não enxerga, disponho da cegueira,desobrigado, pois se eu tivesse dois corações, não me sentiria culpado por ser capaz de me apaixonar por duas pessoas ao mesmo tempo.

Quantas vezes fingi que não percebia, só para não me revelar… Tantas outras, usei as mãos mesmo já sabendo o que iria encontrar. Tocar é tão melhor do que avistar. As distâncias se estreitaram. Outra coisa linda que sempre ouço dos mais sensíveis, quando levo minha mão ao seus ombros e me deixo guiar entre ruas e pessoas desconhecidas: “estamos tão carentes de contato, que poder andar com alguém assim é como transgredir a apatia decretada pela pressa de se viver”. Então seguro forte, me ponho mais próximo do que realmente precisaria, só pra realizar-lhes um desejo, consolar a solidão de caminhar nas calçadas lotadas.

Já não estou só. Existir e modificar agora exige a presença do outro. Mas, espere aí… Isso já era fato, antes de cegar. Eu que não admitia, arrogante e cheio de olhos e coisas das quais ficava sabendo sozinho, sem precisar perguntar a ninguém. Enquanto eu ia me afastando, conhecendo as respostas à distância, via as pessoas cada vez menores, quase miragens. Como tudo é perspectiva: de lá, elas também me vislumbrando como um espectro, pairando no ar luminoso. Sem consistência.

Por falar nisso, desenvolvi um gosto especial por dar consistência a coisas abstratas. Por exemplo, vez em quando ouço vozes que são tão solenes que chegam aos meus ouvidos como notas brancas. Minha melhor amiga tem a voz cor-de-rosa salpicada de granulados coloridos, mas eu nunca disse isso a ela, porque ela acha que vermelho lhe cai melhor; sendo assim, como não posso mais argumentar em cores, assinto. O perfume que uso é sólido como madeira, mas prefiro sentir dos outros a maciez de colônias muito sedosas. Fragrâncias de frutas ficaram perigosíssimas, se vou beijar a face de alguém que use uma dessas, a vontade é de morder a maçã do rosto. Fiquei tão satisfeito quando me dei conta de que a discussão sobre o racismo me escapa completamente. A textura da pele na ponta dos dedos é incolor, mas traz impressa histórias enormes. Logo fico cheio de assuntos, perguntas curiosíssimas sobre as cicatrizes e linhas, forças de expressão. Ainda não aprendi o Braille,talvez porque tatear e ler pessoas seja tão mais interessante.

As noites se alongam muito, tensas, quase se rompendo. Pela janela ameaçadora, luzes mudas adornam a cidade, como num Natal sem festa. Comemorar passou a ser o desfrutar de uma vibração. Se eu desde sempre soubesse como é verdade o quanto a alegria contagia, invisivelmente, teria me empenhado mais em celebrar. A tristeza, por sua vez, esfria tudo, cola no ar, deixa a atmosfera dura, sem metáfora nenhuma. Assim, a festa não se trata mais de colorir ou decorar, mas de ajustar uma frequência e alinhar todos nela. Poucas reuniões conseguem isso, também descobri.

Querer voltar a enxergar é um suspiro constante, antes de deitar e depois de levantar, aprendi a entender-me e lido com isso tão bem quanto lido com todos os outros desejos distantes que tenho. Essa vontade, portanto, não me dói. Só que, Vez por outra, especialmente em dias nublados, quando venta mais forte e o ar fica menos urgente, a vontade se transforma em saudade. A saudade do que já vi, sim, esta me corrói um pouco sempre que bate. Mesmo isso não é de todo triste, pois me dá um senso de trajetória. E se tem uma coisa que cegar exige é conhecer bem, memorizar muito as trajetórias por onde a gente precisa passar. Passo por mim sem grandes dramas. Claro, aqui ou ali, esbarro, machuco as canelas, até sangro mais do que costumava. Curiosamente, desde que caí no escuro, nunca mais desabei ao chão. Tropeçar, tropeço sempre, mas aprendi a sustentar o peso da queda. Mesmo assim, choro feito uma criança, com seus joelhos ralados por baixo do mertiolate.

Não fosse isso, seria outra coisa, problemas não faltam, nem desafios. O essencial é se familiarizar com eles, para conseguir domar o medo. Adestro-o um pouco, a cada dia. Frequentemente, falho, mas não me saboto. Eis o meu medo. Qual é o seu?


Originally published at www.livrepauta.com.

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