Da necessidade das portas

CONSIDERAÇÕES MUITO ABSTRATAS SOBRE COISAS INÚTEIS, RESULTANTES DE UM DIA PARTICULARMENTE TEDIOSO.

Eu defendo o direito humano de ter uma porta. Deveria ser garantido a todo cidadão, assim que nasce, receber uma porta. Os planos de amparo social deviam pensar em prover os mais necessitados também de portas. Pra quem não pode comprar ou construir a sua, um “bolsa-porta” seria somente o justo. A porta é imprescindível para a sobrevivência humana. A porta diz a quê viemos. A porta é a única razão por continuarmos vivos.

Todo mundo precisa bater na porta. É uma regra indispensável para a construção de laços. Entrar pela porta alheia sem bater é crime inafiançável. É certo que, vez por outra, alguns têm boas intenções, mas quem não se anuncia, na maioria das vezes, é porque tem algo a esconder. Todo mundo merece que batam à sua porta, pra evitar os sustos. Muito se ouve falar de pessoas que se machucam por entrarem sem bater e, sendo confundidas com criminosos, são feridas por legítima defesa. Não fosse a porta, o caminho estaria livre para os machucados e crimes acidentais. Todo mundo deve bater à porta.

E também bater a própria porta. É insubstituível o prazer de bater a porta. E saudável, é revigorante. Geralmente batemos a porta pra evitar socos e pontapés, ou pra compensá-los, no caso da vontade ser enorme e a oportunidade não vier. A porta é a nossa garantia de que há salvação para a raiva humana: quanto mais forte batemos pra fechá-la, mais aberta ela ficará depois do impacto. As dobradiças da porta, o perdão aprisionado. A porta vai e volta, mas nunca se arrepende, permanece lá sem hesitações. Ela é a prova de que mudar de idéia não significa perder o propósito. Da raiva ao perdão, a porta viaja sem se abalar.

Ninguém jamais viverá plenamente sem uma porta, porque é preciso das fechaduras pra que os acontecimentos tenham sequência. Deixar em aberto apenas atrasa. Veja bem, só podemos sair de casa quando temos certeza de que trancamos a porta. Se esquecemos, ou voltamos de onde estamos para reparar o erro, ou a consciência nos molesta até voltarmos pra casa. Não dá para aproveitar os passeios sem a segurança dos desfechos. Pois sim, se fosse pela morfologia, desfechar seria abrir. Mas as portas são de matéria, não de gramática, e as chaves torcem tudo pra que estejamos seguros.

Mas, principalmente, todos temos o direito a uma porta porque todos temos a necessidade vital de, vez por outra, nos isolarmos. A porta nos guarda, mesmo sem paredes. Não se engane, a porta estabelece, ela sozinha, um limite intransponível. Uma área VIP, por exemplo, não precisa de paredes, basta algumas correntes presas em estacas de 1m para estabelecer uma divisão implacável. As correntes são portas, as faixas são portas, as linhas são portas… Somente as paredes não são portas. Quando você quiser estar sozinho, não procure quatro paredes, procure uma porta. Quatro paredes sem uma porta resultam apenas num apêndice do corredor. Uma porta sem nenhuma parede é capaz de te ocultar para sempre. É por isso que dizemos nos esconder “atrás da porta”, e não “na frente da parede”. Só a porta nos interessa. Só a porta nos salva.