De quê se enche a Lua Cheia?

LISTA INTERMINÁVEL DE QUESTIONAMENTOS INÚTEIS SOBRE UMA ROCHA ESPACIAL

De sonhos e esperanças e intenções esquecidas? De erros passados e escolhas futuras? De medos e ânsias, coragens impostas? Do amor de quem ganhou? Da saudade de quem perdeu? De triunfos vãos ou derrotas recompensadoras? De dor e amargura superadas? De luz do sol, fraca e debilmente refletida? De pensamentos impuros, intenções vis, arrependimentos de crimes que jamais cometeremos? Ou da culpa e do remorso pelas nossas ignorâncias? Do choro dos inocentes, de gritos por socorro? Ou de silêncio, puro e simples silêncio? E se for de pura indiferença, e por isso nos incomodamos? E se for só aquilo que vemos, e se nada houver de extraordinário senão o fato de ser celeste e se exibir? Será que ela se enche apenas de si mesma? De vaidade e luxúria? Dos gemidos surdos dos amantes, do choro seco dos solitários? Da amargura de uma noite inteira por superar, ou da doçura de ser grande e bela e inspiradora e indesvendável? Será que é do sopro de uma criança que, empolgada, enche mais e mais um balão até que ele rompa e exploda? E se alguém curioso espetasse-lhe um alfinete, de que seriamos cobertos? Ou seria de ambiguidade que ela se enche, porque quanto maior seu lado luminoso, maior devemos deduzir ser seu lado oculto. De quantos segredos está cheia a Lua Cheia? Será que é puro enigma? OU será pura generosidade? Será que, na verdade, ela é oca e se deixa vazia e aumenta seu vazio um pouco mais todo mês, só pra gente poder inventar muito e caber qualquer coisa lá dentro? Então é de imaginação que se enche a Lua Cheia? De invenções, imitações, fábulas e fantasias? De histórias enormes sobre homens e mulheres enormes e cheios, luminosos por um lado, obscuros do outro? De coisinhas pequenininhas, como abraços e carinhos e beijinhos sem ter fim? Ou de uma coisa grande e sólida e única que ocupa todo o espaço? Quanto espaço do espaço ocupa a Lua Cheia? É só aquela bolinha no quadro negro mesmo? Circundada por tantas outras bolinhas brilhantes cheias de ciclos e órbitas e cálculos gigantes? Talvez ela se encha de probabilidades, que se extrapolam mensalmente… Ou, quem sabe, de possibilidades esgotadas. Seria do sangue que corre também em ciclos e que anuncia que mais uma vida ainda não está por vir? Da cintilância branca que escorre, desperdiçada, esgoto abaixo? Ou do líquido que sobra das vidas que vingam? Será das águas que ela atrai, sedutora e possessiva? É de humanidade que ela se enche, ou somos apenas nós enchendo o saco dela? Das nossas arrogâncias? Dos nossos narcisismos? Das nossas petulâncias? Dos corpos que sua luz revela em meio ao breu? Ou das almas que se escondem e culpam-na por pecados enormes? De loucura, insensatez, desespero? De inconstância? Mas se ela se dedica tanto a ser pontual… De compromissos, afazeres, responsabilidades? Deus, se for de responsabilidades, qualquer noite dessas há de estourar! E se ela estourasse, sobreviveríamos e conseguiríamos juntar os cacos?