Dos olhos
Queria ter mais olhos do que tenho. Sempre que me dizem que eles são as janelas da alma, me sinto tão abafado, sem luz, sem ar, sem movimento; como um cachorro que fica trancado em casa, quando a família sai de férias. Toda vez que falam das meninas dos olhos, sinto-me completamente abandonado; sem garotas, nem mulheres, nem velhinhas e suas cataratas. Reclamam dos três graus de miopia e do meio grau de astigmatismo, e eu não consigo não lhes ser condescendente. Eu que não tenho nada nos olhos, porque ter olhos não significa nada, rio maldosamente dos ciscos de todo dia.
Ergo a cabeça e vejo uma nuvem, no mesmo instante já não é mais uma nuvem, é só a idéia que eu faço de uma nuvem que talvez nem esteja lá. Não há garantias de que as coisas sejam tal qual eu as vejo, porque não há garantia de que nada seja tal qual tudo ou qualquer coisa que julguemos que seja. A nuvem que vejo pode ser só minha preocupação em ver algo no céu. O céu pode ser azul apenas porque meus olhos me mostrem aquilo que eu julgue precisar ser azul para me satisfazer do azul que me falta nos olhos. Nem sei se o meu azul é o mesmo que os olhos do meu vizinho vêem.
Viram? A criança passou correndo, chamou pela mãe que não via. Eu vi a criança e isso de nada adianta, porque é o que não vejo que me interessa, e não quem me veja procurar. Vocês não a viram… Não a procuram, por que veriam? Não é seu filho, seu primo ou seu irmão. Não é sequer você mesmo em um túnel do tempo. Fosse o caso de uma projeção, mesmo assim não veríamos a criança, mas aquilo nosso que ela carrega involuntariamente. Do mesmo modo com um velho, ou um palito de fósforo.
Não nos contentamos com o espelho, por ser demasiado óbvio. Há uma resistência instintiva do ego em se aceitar assim de pronto, estatelado na planície do vidro.
Não se pode confiar nos olhos por uma razão fundamental: eles são inseguros. Porque o olho é capaz de ver, por si mesmo, tudo em volta, menos a si mesmo. O olho que vê só pode enxergar-se por subterfúgios externos a si. Espelhos, lâminas d’água, costas das colheres mostram apenas cópias imprecisas, e mesmo invertidas! E fotografar os olhos é só desperdício de metalinguagem. O olho não se reconhece, por nunca ter-se visto deveras. Daí essa busca incessante pelo olhar alheio, tentando provar se aquele outro par de olhos é mesmo um par de olhos que tampouco se enxerga.
E por qualquer olho ser essencialmente cego, é que eu queria ter mais olhos do que tenho. Pra ser mais cego do que sou, pra reconhecer mais e mais que, a despeito de tanta beleza, olhar é apenas olhar, se não houver um mínimo de sensibilidade por trás das retinas de quem olha.