Entre nós e a gente

TEXTO CATASTRÓFICO E MELODRAMÁTICO COM UM PONTO DE VISTA INGÊNUO SOBRE AS COISAS QUE MUDAM SEM AVISO

Nós virou a gente por pura falta de plural nas ações, os verbos se conjugam menos. A gente fala, a gente escreve, a gente publica, a gente curte, a gente compartilha, tudo junto, mas sozinhos. Não tem mais lugar coerente entre nós. Nós não vamos mais ao parque, nós não olhamos mais nos olhos, nós perdemos o contato, a gente ganhou milhões de seguidores, nós seguimos cada um na sua linha do tempo. Nós, em rede, somos o avesso do social.

Quando ainda não tinha tanta conexão, eu me culpava por não conseguir me conectar com os coleguinhas da escola. No pátio, os meninos jogavam futebol, as meninas inventavam histórias lindas, enquanto eu estava sentado no banco, com meu iogurte de morango. Ninguém me pedia um pedaço, comiam salgadinhos, refrigerantes… eles na cantina, eu no banco de pedra, sem pernas que soubessem chutar, sem memórias que pudesse inventar. Quando eu não tinha rede sem fio, via que meus iguais eram muito mais iguais entre si do que eu. Só que passou o tempo e a fibra óptica. Chegou a era das senhas, e ninguém se decifra. Então, eu que nunca fui nós, pulei logo para ser a gente. A gente era criança e brincava no plural. Nós ficamos adultos e solitários, brincando de ser global, com a vida em cristal líquido escorrendo por entre nossos dedos. Os dedos da gente,

quem escreve a história da gente agora, com nossos dedos tão ocupados? A gente não se preocupa mais, tudo está automaticamente registrado. Nós tínhamos que fazer esforços enormes para salvar uma lembrança, mas a gente agora faz de conta que esquece, pra ver se consegue dar espaço ao que vem a seguir. A gente formata, a gente desfragmenta, a gente registra nas nuvens o que não pode ficar na matéria, porque a gente está preso demais ao que quer, e o que a gente quer é o que a gente ainda nunca teve. Nós olhávamos pro céu e víamos sonhos infinitos. A gente abaixa a cabeça pro infinito que é não saber quantos sonhos cabem entre o zero e o um.

A gente é curioso. Mas éramos nós quem caçávamos tesouros para dividir com a turminha. A gente coleciona pra construir uma personalidade, só que a gente se preocupa tanto em saber o que o outro coleciona também que acaba tudo igual. Nós não tínhamos escolha, e isso nos unia na coisa que éramos obrigados a ter em comum. A gente não sabe mais escolher, e isso põe a gente na mesma indecisão. A gente ficou igual por opção. Nós éramos iguais sem querer, e quando se reparava nisto, ríamos, divertidos, deus abençoe as coincidências. A gente se esforça demais pra não se parecer, porque quando a gente vê que se parece, a gente se denuncia. Não tem coisa mais desconfortável, para a gente, do que o flagrante no rosto do outro. Nós nos decepcionávamos por não estarmos ligados. A gente se desliga pra não morrer de decepção com o outro. O outro que é tão a gente, o outro que, quando era nós, nós brindávamos. A gente se digladia um com o outro, só pra ver quem é O Um.

A gente se interessa muito por histórias d’O Escolhido. A gente compra pilhas de livros que a gente não empresta a ninguém. Aliás, a gente nem precisa mais emprestar, porque o download é de graça e a cópia sai automática. A gente não lê junto, a gente não recita, a gente fica tentando dizer coisas poéticas para o outro achar a gente interessante, o que é muito difícil, pois o outro também é a gente e a gente está numa crise de autoestima insuportável. Nós apanhávamos do valentão no corredor, entre as salas, nós fugíamos e nos escondíamos do outro que era tão diferente, tão incrivelmente avesso, que acabava ganhando ares de monstro. Nós trocávamos histórias fantásticas de equipes que destruíam um mal comum. A gente está tão consciente, que a gente já se entende enquanto mal em si. A gente tem medo de não saber ganhar da gente

É bem verdade, “a gente não quer só comida”, a gente quer que nos alimentem. Nós queríamos a fome, buscávamos fazer do corpo um meio de existir. A gente não quer só diversão, a gente quer rir da cara do outro, do ridículo que é ser outro, pra tentar amenizar a gravidade que é ser ridículo e não poder demonstrar. Nós queríamos que o outro fosse menos invencível, rezávamos pelo dia em que a felicidade estivesse disponível nas melhores lojas do ramo. Nós queríamos artistas que soubessem dizer o que não conseguíamos, nós queríamos porta-vozes para um sentimento mudo comum. A gente não quer só arte, a gente quer fama, quer o nome na capa, no cartaz, a gente quer mover legiões, porque está mais fácil convencer uma população inteira do que conquistar o coração de uma pessoa só.