Espaço Relativo

De vez em quando bate a saudade, o que é muito natural. Ou será? Tenho sentido falta de coisas e pessoas que estão muito próximas. Infelizmente, nem é caso de não as encontrar por aí. Ontem mesmo, estive com um melhor amigo e qual não foi minha melancolia, a de reparar que, mesmo sentados um de frente para o outro, nenhum de nós estava realmente ali fazendo companhia. Eram dois alguéns sozinhos que calharam de estar na mesma sala, sequer por coincidência, pois o encontro fora combinado por telefone, horas antes.

Um gosto amargo descia goela abaixo com a cerveja, enquanto eu ia, pouco a pouco, percebendo que nós dois estávamos apenas cumprindo um hábito. Perdi a visão, que é um sentido, mas nunca perdi um membro, que é uma ferramenta. Quem perde membros, eu li por aí, pode sofrer de um problema a que chamam “síndrome do membro fantasma”. É tipo você perder um braço, mas sentir que o braço ainda está lá, porque o cérebro ainda não assimilou a perda física. Então tem gente que sente dor e tudo em membros ausentes. Tem gente que sente cócegas no braço arrancado. Tem gente que quer coçar a perna amputada. Tem gente que toma cerveja e conversa banalidades, só pra não admitir que haja algo indecifrável faltando e que nem a proximidade espacial torna isso menos brutal.

O acaso (aquele troll) gosta de ironizar. Assim: tenho sentido que minhas melhores companhias estão fora do meu alcance. Milhares de contratempos me impedem de ir muito longe, o maior deles sendo eu mesmo. Nem assim posso reclamar de estar limitado. É muito fácil reclamar da frieza do mundo-pós-moderno-globalizado-virtual-atualizado-em-tempo-real, mas, não fosse isso, pra quem eu estaria abrindo o peito agora? O amigo da cerveja não pôde me ouvir, não quis, não estava presente na cadeira à minha frente. Então eu engoli em seco e vim debulhar-me para estranhos. Você me é estranho, leitor?

Dizem que depois de escrito, o texto deixa de ser de quem escreve e passa a pertencer a quem lê. Então eu sou você lendo. E tem pessoa mais estranha do que você-mesmo? Eu tenho pra mim que não se pode confiar em alguém que diz conhecer-se muito bem. Eu me assusto com pessoas que não se deixam surpreender consigo mesmas, para o bem ou para o mal. Eu me sinto insultado quando vejo alguém que já tem uma ideia formulada e rígida sobre si-mesmo, e que não faz a menor questão de mudar de opinião. Pra mim, quem se conhece demais, se engana demais e se ausenta.

Certa vez, eu tinha certeza de que me conhecia muito bem e quebrei a cara tomando atitudes horríveis. O conselho mais reproduzido, nesses tempos de anonimato e vida-online: confie sempre desconfiando. Aprendi que autodesconfiança é mais produtivo do que autocrítica. Entendi que nem sempre sou capaz de estar ali quando me chamam, e que isso vale pra todo mundo, porque, afinal, quem não é humano nesse mundo-cão? Eu sou, portanto, posso me enganar sobre mim mesmo tanto quanto sobre os outros.

Então, eu me enganei achando que para estar perto fosse preciso estar próximo, ou que para morrer fosse necessário deixar de respirar, ou que para acabar fosse preciso haver um começo, depois um meio e, por fim, o adeus dito. O pior desfecho é o silêncio, que vai sufocando, invisível e pouco a pouco, fazendo com que o meio metro entre uma cadeira e outra vire abismo, reproduzindo débeis ecos entre copos amargos e vazios.

Like what you read? Give Sidney Andrade a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.